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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Bichinho

Pousou um bichinho desgraçado no meio da minha testa.

Meu primeiro impulso é o de esmagá-lo com toda a rapidez e fúria de alguém cujo sono é interrompido aos primeiros raios da manhã. Logo me recordo de que não existe essa possibilidade: tenho braços, pernas e troncos imobilizados devido a um acidente pouco importante.

Balanço o quanto posso a cabeça – muito pouco, na verdade – e nada: ainda sinto suas patinhas em mim.

Se ao menos soubesse com que espécie estou lidando! Mas não há espelhos ao alcance da vista, de modo que só me resta confiar em meu tato e minhas notáveis habilidades de reconhecimento biológico com a fronte.

Ora, sinto-lhe pequeno, o bichinho, logo tenho a inútil certeza de que não se trata de uma águia, muito menos de um dragão. Sei também que chegou em mim pelo ar: estão, pois, doravante, descartados todos os peixes, os cães e as serpentes. As baratas não estão descartadas (rezo baixinho para que não seja de fato barata. Barata é tristeza).

A enfermeira do quarto dorme discretamente no corredor. Vejo-a pela janela de vidro, de costas e de cabeça pendente. Eu deveria era repreendê-la (as patinhas fazem cócegas devagar – o bicho se move sem sair do lugar), afinal podia não se tratar de um caso de bicho-na-testa: um meteoro, uma labareda. Deveria, sim, gritar, fazê-la sentir-se culpada por cochilar em serviço e despertá-la com um susto. Mas não grito: o grito, deixo-o para quando precisar de verdade. E, aliás, essa coisinha em mim já nem me incomoda – exceto talvez pelo fato de ainda não saber sua origem.

E, depois, é divertido brincar de imaginar-me ornamentado com uma borboletinha azul e roxa. Ou mesmo ter me tornado altar para um louva-a-deus qualquer.

Altar, não. Sai, louva-a-deus. Tento assoprar na direção do ser, mas sou impedido – traído! – pela minha própria anatomia nasal. Meu melhor resultado é sentir as patitas que me acariciam de leve. Abelha, joaninha ou besouro, até que é um negócio gentil.

De esguelha, consigo ver a enfermeira, que acorda. Como para se redimir do erro, entra de pronto no meu quarto sem dizer uma só palavra. Esfregando delicadamente seus olhos, pergunta bondiosamente: precisa de alguma coisa.

Respondo-lhe: faz favor de tirar isso de mim, que me pinica.

Ela retruca: que isso? Não tem nada aí, isso deve ser ideia da sua cabeça.

E a ideia parou de coçar.

4 comentários:

marilsa disse...

Ah! esqueci. Parabéns a todos vocês pelo aniversário de 3 aninhos do blog.

_Thiago disse...

hahahaha.
por isso eu ri tanto hoje, Victor!

Dani Nani disse...

Adorei!!!!!

Renan Coelho disse...

Ótimo conto!