De que me vale todo esse castelo que não construi, se não sou íntegra? Ando cansada, embora mal use minhas pernas para caminhar sozinha: sempre tive uma legião para atender a todas as necessidades que tinha e destinha.
Não estou nua, mas rasguei meu vestido, aquele que não sei quem coseu.
Tampouco estou bêbada. Acho que nunca estive de mais sóbria em todo o sempre, se é que o tempo existiu antes de eu nascer e, agora, nascer.
Agora eu quero o mar inteiro, sem vidro. Quero voar, sem madeira ou metal. Quero sair da linha, eu bonde, conduzida.
Agora eu quero afundar completamente na terra, sentir o gosto do chão, do podre, da carne em putrefação até vomitar - essa minha expressão que, descubro, é a mais sincera e secreta. Quero misturar-me aos porcos, aos pombos, aos ratos, às mais vis bactérias, eu que sempre fui mais rota que o asco por si.
Quero morder a carne, ainda que a minha , sentir o gosto da substância, aquilo que move o mundo e que por tanto tempo me foi negado.
Quero deitar nos campos e me deixar levar pelo cheiro das dardípias, vivas ou mortas, sob a chuva ou não, porque o meu desejo é de ser, é viver o momento, o instante-já, o não importa.
Quero chegar ao mais fundo o possível, para que eu possa enfim entrar em equilíbrio com o universo, o cosmo, o inferno que for. Entrar em equilíbrio comigo mesma, embora não seja a paz garantida.
É a partir de então que eu conseguirei o que quero, embora ainda não saiba o que quero de fato. Acho que quero o fato, a Verdade absoluta: eu. Eu sou ou não sou um fato?
Eu sou, aqui.
Eu sei.
Próxima palavra: Taruela
Desafio da Última Linha
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
terça-feira, 18 de agosto de 2009
[Desafio] Mercado aberto
Por ser caixeiro-viajante, por muitas bandas havia passado. Conhecera muitas pessoas, travara relações, amizades, inimizades. Eram tantos rostos e tantos lugares que há muito tempo as coisas tinham deixado de lhe impressionar. Mulheres barbadas, já vira umas trinta; sereias, conhecera uma (muito simpática, por sinal), enterro de anão, já participara de vários, sendo coveiro em uma pequena parte deles, aliás.
Como dito, há muito tempo, as coisas não lhe impressionavam mais.
Mas não deixavam de lhe dar uma certa alegria secreta, porque eram a prova de que ele era livre, de que podia sair por aí como bem entendesse e levava a vida que sempre sonhara: sem raízes.
(Só que isso não interessa no momento. A felicidade dele não é o que eu quero contar. Quero contar-lhes sobre aquilo que reacendeu a chama do espanto e da inquietude dentro do caixeiro.)
A vida seguia tranqüila como sempre fora, apesar de movimentada. Ele chegou numa cidade conhecida, à noite e hospedou-se num hotelzinho qualquer. Resolveu, porém, sair à noite e aproveitar a feira noturna que funcionava na cidadela (aquela em que trabalharia no dia seguinte) sem grande compromisso. Foi se divertir, enfim.
As cores cálidas, as luzes fortes, os cheiros inebriantes, a balbúrdia dos barraqueiros, tudo era lindo e inesperado para qualquer um, exceto para ele, que lançava sobre tudo um olhar blasé, de déjà-vu, mas se divertia por dentro.
Andou mais um bocado, até se deparar com uma multidão que se atulhava numa roda, em torno de algo que não se podia ver direito do ângulo em que ele se encontrava. Foi, então, ver o que se passava. Provavelmente um grupo de palhaços ou atores.
Chegando lá, depois de empurrar fulanos e beltranos, viu que se tratava de um espetáculo não de palhaços ou atores, mas de bupons. Os bupons riam, brincavam, jogavam com os espectadores, tudo numa alegria que se espraiava para todos.
É claro que já tinha visto um bupom, mas esses eram de certa forma especiais. Eles tinham um encantamento tal que era impossível ficar indiferente ao espetáculo.
Terminado este, todos foram às suas casas, mas o caixeiro continuou lá, atordoado, atormentado. Não sabia muito bem o que fora aquilo, o que aquilo que vira tinha representado, mas isso, com toda a certeza, mexera com ele, e isso era tudo. Depois de um tempo, conseguiu se recuperar do choque e foi para sua hospedaria. E dormiu.
No dia seguinte, antes de montar sua venda, procurou saber mais sobre o grupo que passara por ali. Perguntou para outros fulanos e beltranos, mas ninguém de nada sabia. Era como se nada tivesse acontecido.
Abriu, então, a barraca e começou a vender, como sempre. Era triste, mas a vida continuava. Com ou sem a trupe de bupons.
Dizem que ainda hoje ele pergunta para todos os fregueses de todos os lugares por que passa se eles viram aquele grupo de bupons, com esperança de poder, de novo, sair do estado de indiferença que a vida viajada lhe deu.
Como dito, há muito tempo, as coisas não lhe impressionavam mais.
Mas não deixavam de lhe dar uma certa alegria secreta, porque eram a prova de que ele era livre, de que podia sair por aí como bem entendesse e levava a vida que sempre sonhara: sem raízes.
(Só que isso não interessa no momento. A felicidade dele não é o que eu quero contar. Quero contar-lhes sobre aquilo que reacendeu a chama do espanto e da inquietude dentro do caixeiro.)
A vida seguia tranqüila como sempre fora, apesar de movimentada. Ele chegou numa cidade conhecida, à noite e hospedou-se num hotelzinho qualquer. Resolveu, porém, sair à noite e aproveitar a feira noturna que funcionava na cidadela (aquela em que trabalharia no dia seguinte) sem grande compromisso. Foi se divertir, enfim.
As cores cálidas, as luzes fortes, os cheiros inebriantes, a balbúrdia dos barraqueiros, tudo era lindo e inesperado para qualquer um, exceto para ele, que lançava sobre tudo um olhar blasé, de déjà-vu, mas se divertia por dentro.
Andou mais um bocado, até se deparar com uma multidão que se atulhava numa roda, em torno de algo que não se podia ver direito do ângulo em que ele se encontrava. Foi, então, ver o que se passava. Provavelmente um grupo de palhaços ou atores.
Chegando lá, depois de empurrar fulanos e beltranos, viu que se tratava de um espetáculo não de palhaços ou atores, mas de bupons. Os bupons riam, brincavam, jogavam com os espectadores, tudo numa alegria que se espraiava para todos.
É claro que já tinha visto um bupom, mas esses eram de certa forma especiais. Eles tinham um encantamento tal que era impossível ficar indiferente ao espetáculo.
Terminado este, todos foram às suas casas, mas o caixeiro continuou lá, atordoado, atormentado. Não sabia muito bem o que fora aquilo, o que aquilo que vira tinha representado, mas isso, com toda a certeza, mexera com ele, e isso era tudo. Depois de um tempo, conseguiu se recuperar do choque e foi para sua hospedaria. E dormiu.
No dia seguinte, antes de montar sua venda, procurou saber mais sobre o grupo que passara por ali. Perguntou para outros fulanos e beltranos, mas ninguém de nada sabia. Era como se nada tivesse acontecido.
Abriu, então, a barraca e começou a vender, como sempre. Era triste, mas a vida continuava. Com ou sem a trupe de bupons.
Dizem que ainda hoje ele pergunta para todos os fregueses de todos os lugares por que passa se eles viram aquele grupo de bupons, com esperança de poder, de novo, sair do estado de indiferença que a vida viajada lhe deu.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
[Desafio] Excertos do diário de um naturalista
"18 de janeiro, 1899.
Hoje chegamos ao vilarejo de que nos falara o nativo. Lung-Tsong não cumpre mais tanto o papel de tradutor, uma vez que o dialeto que se fala nessas aldeias daqui é ininteligível para ele; suas habilidades com a jangada são muito úteis, assim como os unguentos para mosquitos que nos trouxe.
Desde nossa partida da aldeia, ontem, a mata se adensou, e agora o terrível odor acre que impregna tudo, até a água do cantil, recrudesceu. Perguntei a Lung-Tsong do que se tratava, mas ele não soube responder. Superei o asco, e agora consigo mascar os vermes que descrevo no capítulo IX de "Notas sobre as viagens à Umpalúmpia". O gosto não é tão mau, mas devo admitir que a textura me dá ânsia de vômito. Não é melhor que chicles tutti-frutti, mas realmente ajuda a suportar o cheiro. (...)
Estou começando a me acostumar à água turva do rio e a não saber que tipo de criatura nada por ela. Uma planta especial me tem fascinado: Smithum cærnidari. (...) Nela, parecem concentrar-se uns pernilongos realmente enormes, com umas listras vermelhas. Lung-Tsong disse-me que não me preocupasse, mas eu tenho lá minhas dúvidas.
No vilarejo, fomos bem recebidos. Lung-Tsong tentou se comunicar com o chefe local, mas não sei se conseguiu. Almoçamos um peixe delicioso, de carne rosada, quase doce, mas cuja limpeza temo ter sido negligenciada. Eles nos disseram que o animal que procuramos costuma ficar em bandos a umas duas horas de jangada, rio acima. Vamos até lá pela manhã.
(...)
19 de janeiro, 1899.
Definitivamente, o peixe estava sujo. Uma crise de diarreia atrasou nossa partida em umas boas duas horas, mas a filha do chefe me trouxe um chá muito oloroso, e em pouco tempo me recuperei. Quando pedi a Lung-Tsong que lhes dissessem ter sido o peixe o causador de meu mau-estar, ele me advertiu -- é um grande faux pas.
Subimos a bordo da jangada e, em menos de duas horas, avistei um vulto sorrateiro à margem esquerda do rio. Minha intuição me certificou: era ele. Calmamente atracamos a embarcação rústica e demos passos curtos pela trilha que pensei ter seguido o bicho. A mata era muito densa. Umas folhas pontiagudas me espetaram o rosto e os antebraços. Mais tarde descobriria que se tratavam de folhas de rongbi azul, de cuja seiva se fazem uns malagmas milagrosos vendidos no ocidente a preço de ouro (...).
De repente, uma clareira se abriu a nossa frente. Entendi que qualquer ruído poderia perturbá-los. Não deviam ser muito agressivos, mas não queria espantá-los. Gesticulei a Lung-Tsong que não se mexesse. Milímetro por milímetro, nossos pés avançavam silenciosamente pela grama úmida (ink-gebom, segundo Lung-Tsong).
Eram magníficos. O espesso pelo preto, os pequenos olhos pretos eram como dois botões brilhantes, perdidos dos lados da cabeça. As pernas longas e as garras afiadas nos pés nus. A tamanho de um cão dálmata. A cabeça era como a de um rinoceronte, mas sem o chifre, obviamente. As orelhinhas eram mais compridas, e a gordura das bochechas caía como a de um buldogue. A cauda era o membro mais fascinante. Era comprida e, na ponta, formava-se algo como uma pequena maça. Não era de tecido ósseo, mas não sei dizer qual é a substância. A maior parte deles, quando andava, andava com a ponta da cauda se arrastando pelo solo, e isso funcionava como demarcador de território, porque essa "maça" exalava um almíscar de intensidade moderada. As fêmeas ficavam todas juntas, com os filhotes, enquanto os machos faziam um esforço conjunto para rasgar pedaços de árvores e levar-lhes, para que se alimentassem.
Perguntei a Lung-Tsong se esses animais tinham nomes. E tinham: eram bupons, lindos bupoms. Enjaulei alguns e levei até meu laboratório em Java. Mais sobre o bupom e seus hábitos pode ser encontrado em "Notas", nos capítulos XXIII, XXIV, XXV e XXVI.
(...)"
Esquecera-me de dizer o meu neologismo:
"Dardípia".
Hoje chegamos ao vilarejo de que nos falara o nativo. Lung-Tsong não cumpre mais tanto o papel de tradutor, uma vez que o dialeto que se fala nessas aldeias daqui é ininteligível para ele; suas habilidades com a jangada são muito úteis, assim como os unguentos para mosquitos que nos trouxe.
Desde nossa partida da aldeia, ontem, a mata se adensou, e agora o terrível odor acre que impregna tudo, até a água do cantil, recrudesceu. Perguntei a Lung-Tsong do que se tratava, mas ele não soube responder. Superei o asco, e agora consigo mascar os vermes que descrevo no capítulo IX de "Notas sobre as viagens à Umpalúmpia". O gosto não é tão mau, mas devo admitir que a textura me dá ânsia de vômito. Não é melhor que chicles tutti-frutti, mas realmente ajuda a suportar o cheiro. (...)
Estou começando a me acostumar à água turva do rio e a não saber que tipo de criatura nada por ela. Uma planta especial me tem fascinado: Smithum cærnidari. (...) Nela, parecem concentrar-se uns pernilongos realmente enormes, com umas listras vermelhas. Lung-Tsong disse-me que não me preocupasse, mas eu tenho lá minhas dúvidas.
No vilarejo, fomos bem recebidos. Lung-Tsong tentou se comunicar com o chefe local, mas não sei se conseguiu. Almoçamos um peixe delicioso, de carne rosada, quase doce, mas cuja limpeza temo ter sido negligenciada. Eles nos disseram que o animal que procuramos costuma ficar em bandos a umas duas horas de jangada, rio acima. Vamos até lá pela manhã.
(...)
19 de janeiro, 1899.
Definitivamente, o peixe estava sujo. Uma crise de diarreia atrasou nossa partida em umas boas duas horas, mas a filha do chefe me trouxe um chá muito oloroso, e em pouco tempo me recuperei. Quando pedi a Lung-Tsong que lhes dissessem ter sido o peixe o causador de meu mau-estar, ele me advertiu -- é um grande faux pas.
Subimos a bordo da jangada e, em menos de duas horas, avistei um vulto sorrateiro à margem esquerda do rio. Minha intuição me certificou: era ele. Calmamente atracamos a embarcação rústica e demos passos curtos pela trilha que pensei ter seguido o bicho. A mata era muito densa. Umas folhas pontiagudas me espetaram o rosto e os antebraços. Mais tarde descobriria que se tratavam de folhas de rongbi azul, de cuja seiva se fazem uns malagmas milagrosos vendidos no ocidente a preço de ouro (...).
De repente, uma clareira se abriu a nossa frente. Entendi que qualquer ruído poderia perturbá-los. Não deviam ser muito agressivos, mas não queria espantá-los. Gesticulei a Lung-Tsong que não se mexesse. Milímetro por milímetro, nossos pés avançavam silenciosamente pela grama úmida (ink-gebom, segundo Lung-Tsong).
Eram magníficos. O espesso pelo preto, os pequenos olhos pretos eram como dois botões brilhantes, perdidos dos lados da cabeça. As pernas longas e as garras afiadas nos pés nus. A tamanho de um cão dálmata. A cabeça era como a de um rinoceronte, mas sem o chifre, obviamente. As orelhinhas eram mais compridas, e a gordura das bochechas caía como a de um buldogue. A cauda era o membro mais fascinante. Era comprida e, na ponta, formava-se algo como uma pequena maça. Não era de tecido ósseo, mas não sei dizer qual é a substância. A maior parte deles, quando andava, andava com a ponta da cauda se arrastando pelo solo, e isso funcionava como demarcador de território, porque essa "maça" exalava um almíscar de intensidade moderada. As fêmeas ficavam todas juntas, com os filhotes, enquanto os machos faziam um esforço conjunto para rasgar pedaços de árvores e levar-lhes, para que se alimentassem.
Perguntei a Lung-Tsong se esses animais tinham nomes. E tinham: eram bupons, lindos bupoms. Enjaulei alguns e levei até meu laboratório em Java. Mais sobre o bupom e seus hábitos pode ser encontrado em "Notas", nos capítulos XXIII, XXIV, XXV e XXVI.
(...)"
Esquecera-me de dizer o meu neologismo:
"Dardípia".
terça-feira, 21 de abril de 2009
o primeiro neologismo
Já que o Pedro não definiu a primeira palavra, eu defino. E a pimeira palavra é....
Bupom
Bupom
Novo Desafio -- Neologismos
Discutiu-se o lançamento de um novo desafio, tendo acabado o desafio dos títulos. A ideia frívola de agora é escrever a partir de neologismos.
Ao final de cada texto, o blogger deverá criar um neologismo -- tendo ele radicais e afixos identificáveis ou não -- cuja estrutura fonológica seja possível na língua portuguesa e que deverá ser usado como elemento principal nos textos subsequentes.
As regras para uso da proposta serão como as do desafio anterior: por rodada, um blogger poderá cunhar no máximo UMA palavra -- se não fosse assim, a quantidade de neologismos aumentaria em progressão geométrica.
Um breve exemplo:
[simulação]
Pedro escreve:
João foi à feira e comprou uma melancia rosa. O fim.
Neologismo: "crábida".
Cássia escreve:
Ananias adora crábidas. Elas são bonitas. O fim.
Neologismo: "lucurutica".
Victor escreve:
Lucuruticas são divertidas porque elas protegem os golfinhos. O fim.
Neologismo: "guicerice".
E assim ad eternum.
[/simulação]
Os textos serão, obviamente, sérios.
Ao final de cada texto, o blogger deverá criar um neologismo -- tendo ele radicais e afixos identificáveis ou não -- cuja estrutura fonológica seja possível na língua portuguesa e que deverá ser usado como elemento principal nos textos subsequentes.
As regras para uso da proposta serão como as do desafio anterior: por rodada, um blogger poderá cunhar no máximo UMA palavra -- se não fosse assim, a quantidade de neologismos aumentaria em progressão geométrica.
Um breve exemplo:
[simulação]
Pedro escreve:
João foi à feira e comprou uma melancia rosa. O fim.
Neologismo: "crábida".
Cássia escreve:
Ananias adora crábidas. Elas são bonitas. O fim.
Neologismo: "lucurutica".
Victor escreve:
Lucuruticas são divertidas porque elas protegem os golfinhos. O fim.
Neologismo: "guicerice".
E assim ad eternum.
[/simulação]
Os textos serão, obviamente, sérios.
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