Desafio dos Títulos -Encerrado
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
[Desafio] Me chama de chão!
liga pra mim, mas se não ligar, me liga pra dizer que não vai ligar e, se resolver vir aqui, venha descalço e, por favor, não pisa em mim, mesmo que lembre que eu sinto um prazer monstruoso e vil e gosto quando você me chama de chão,
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
[Desafio] Cancelado Devido a Chuva
Construíra uma vida, é bem verdade, e uma boa. No entanto, nunca vivera. Escolhera um marido que não se importava com suas ausências mentais, seus filhos achavam que era só seu jeito de ser. Depois de tanto tempo, ninguém se importava mais em interrogá-la, ninguém se lembrava mais como ela era e suas distâncias passaram por envelhecimento. Quisera ela ter se tornado tão sábia quanto a consideravam nesses momentos. Pouco era necessário para desencadear seus devaneios. Por vezes, o barulho do vento era suficiente.
Questionara-se, também, há tempos, se não estava enlouquecendo. Concluíra que não. Se enlouquecesse, o estado senil impediria a saudade de sufocá-la nesses momentos. Além do mais, não tinha status para tal. Não fora tão culta ou tão altruísta que lhe garantisse o direito.
Perdera-se em devaneios mais uma vez. O tempo estava passando e, se queria alcançá-lo ainda nos portões da cadeia, deveria sair agora. Olhou pela janela e percebeu que o motivo de seu retorno à realidade fora a chuva torrencial que caíra sem aviso. Sempre havia chuva nessa época do ano. Fora nessa mesma estação em que se conheceram. Ela o viu pela primeira vez saindo de seu escritório na praia do Flamengo...
Pronto. Voltara a seus devaneios.
Quanto ao momento em que sua vida seria resolvida? Cancelado. Até a próxima lucidez.
sábado, 13 de dezembro de 2008
[Desafio] A Máquina do Mundo
Inclemente, sem dó, enfiou a faca.
Lâmina de pureza, era uma estaca
escarlate no corpo moribundo.
Parou e viu a nascente de morte,
Que num riacho se desenvolvia.
Engrenagens de inércia e mais-valia
Escorriam da chaga fina, o corte.
Desceu as ancas, formou-se num lago.
Viu tudo, entendeu tudo! Era o norte!
"É o saber e a verdade que trago!"
Larga a faca e sai louco, vagabundo.
Sirene, dinheiro, mentira, morte:
Ia encontrar a Máquina do Mundo.
Meu desafio:
"Cancelado devido a chuva".
[Desafio] Me chama de chão
Me chama, me chama de novo (grita o meu nome), me pisa, me arranha (arranha a tua garganta), me berra, me brada, me urra, me morde, me dói, me machuca (grita o meu nome mais alto) (urra o meu nome).
Me sê, me entra, me dá, me recebe, me sai, me everte.
(Deixa eu ser teu, teu pertence, todo teu, teu todo, tua coisa, teu objeto quotidiano, tua coisa de cumprir tarefas).
Me usa, me usa, me usa, me faz, me compra.
Me rasga, me rabisca, me contorce, me distorce, me fode, me sua, me respira (entra), me constrói, me destrói, me constrói, me destrói, me desdiz, me desfaz.
Me arrasa, me amputa, me arranca, me afasta, me aposta, me atesta, me estaca, me esfaqueia, me atira, me olha, me pisca. (Rasga o meu nome enclítico).
Me sê, me está, me tem, me põe, me tira.
Me joga, me quebra, me ri, me gargalha, me chora, me pranteia, me prateia, me enterra, me cospe, me mija, me assa, me dorme.
Me olha (com desprezo), me vai, me vem, me escolhe, me traz, me leva, me escolhe, me traz, me leva, me vive.
Me pisa, me cala, me chama de chão.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
[ Desafio ] O Fim de Uma Era
Mas é aí que entra a parte chata, e não me refiro a minha abstinência alcoólica. Quando janeiro chegar e eu fizer o que vai ser a última prova do ensino médio eu vou dar adeus a 12 anos da minha vida.
Por sete desses anos, eu tive a companhia de algumas pessoas que, pra mim, são as melhores do mundo. Três desses sete foram os melhores que eu poderia desejar, e digo isso pesando o bom e o ruim. E, em um dia, tudo vai acabar: eu não vou mais vestir a velha camisa branca, não vou ver as velhas pessoas, não vou passar pelos mesmos lugares.
O Adeus sempre pareceu complicado pra mim. Agora eu me vejo chorosa, sofrendo de saudosismo antecipado, querendo rir tudo que ainda não ri. Fico pensando no que vai acontecer daqui pra frente, se algo vai se salvar, lembrando de pequenos detalhes e coisas antigas que achei que tinha esquecido. Pensar no CAp é difícil. Odeio, sem dúvidas. Amo.
Foi lá que eu cresci, física e psicologicamente ( apesar de alguns afirmarem que ainda me comporto feito criança ), e se hoje eu sou o que sou, é culpa quase que exclusiva dele e de seus alunos. Vou fazer visitas nos dois primeiros anos, e depois vou parar, mas estarei no baile dos cem anos.
Vou chorar triste e feliz ao mesmo tempo. Vou levar uma vida, as melhores amizades (porque mesmo que acabem serão sempre as melhores), uma cabeça melhor, lembranças da melhor turma de terceiro ano. Vou levar fotos, nomes e histórias. Vou levar memórias e uma camisa pichada, dessa vez pra nunca mais lavar.
E vou guardar esse texto brega e cafona, que espero substituir por outro a altura de tudo que eu quero dizer.
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Proposta: Me chama de chão!
domingo, 7 de dezembro de 2008
[ Desafio ] Os 11 Motivos do Jacaré
É fato que o jacaré tava se sentindo só e tinha achado na madame uma companhia mais que agradável. Os outros balançaram o rabo em negação dizendo que aquilo era motivo bem do fajuto e que tinha muita da fêmea por ali. “ Mas eu já to cansado dessas jacaré fêmeas, desculpe as amigas que me escutam, que tão com dois em cada hora e dia seguinte fingem que nem conhece quando vê passar na lagoa”. Concordaram todos que podia bem ser verdade, mas que uma decisão extremista daquelas não era necessária, que bem que ele podia se arrepender depois. Jacaré então calou todo mundo dizendo que não era nada definitivo não e , sendo o caso, era só pedir seu couro de volta e retornar pra sua caverninha lá perto da lagoa mesmo.
Prosseguiu a discussão com mais meia dúzia de motivos que a censura e o horário não me permitem dizer, mas que fez as fêmeas ouvindo revirarem os olhos “ jacarés, humpf!” (porque Jacaré não queria mais saber dos relacionamentos de jacarés, mas foi de forma bem jacaroística que essa história de ser bolsa começou.). E como os amigos continuassem a bater pata dizendo que não ‘tavam convencidos e que aquilo tava era muito mal contado, Jacaré abriu a boca e soltou o motivo final e secreto. ‘Tava era apaixonado e por demais e nada fazia ele mudar de idéia.
Passadas as horas e a despedida, a madame chegou pra buscar sua futura bolsa pra ter o couro arrancado fora, e o futuro acessório foi tão feliz e tão risonho que os de sua espécie acreditaram piamente no argumento número 10, de que Jacaré acreditava mesmo que aquilo era o que ele queria e que o deixaria muito do feliz.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
[Desafio] Os 11 motivos do Jacaré
Como assim? Depois de tanto tempo? Que absurdo! Ninguém sai daqui! Vai nos abandonar!
Uma fuzarca geral, um auê, afinal se tratava de parte da milícia da floresta! Humano prudente não entrava na água não, só por causa de Jacaré.
Para piorar a situação, ninguém encontrava o raio do Jacaré em lugar nenhum. Perguntavam pra quase toda a fauna e nada de resposta.
E quede Jacaré? Tava em casa, arrumando as malinhas feitas todas de couro de gente, enchendo de casacos de pele, cabelo, barba, bigode e até pentelho (que horror!) tinha nas roupas.
Até que a coruja, muito da esperta, resolveu questionar o papagaio, até que se achou o Jacaré.
- Ora, que te levou a querer sair de nossa agradável companhia, seu Jacaré?
- Ih, dona coruja, as razões são muitas, mas já te digo que a agradável companhia não existe, não. Esses bichos não param quietos! Meu modo de vida não agüenta essa bagunça não.
- Mas não é só isso, é?
- Ah, dona coruja, vou te contar um segredo: ando co’as costas destruídas de tanto nadar assim.
Vou pro Nilo, pro Sena, pro Tietê, até pra Lagoa Rodrigo de Freitas eu vou, porque essas piranhas me matam!
E partiu, sem ouvir resposta e sem deixar de mandar uma banana pro macaco – ai que ódio desse mico barulhento!
O tempo passou e nem notícias do seu Jacaré, e todos (até mesmo o mico) sentiam falta do danado, até que um dia, voltando de uma temporada de férias, papagaio matreiro e fofoqueiro tratou logo de espalhar a tragédia: Jacaré tinha virado bolsa de uma tal de Madame Sofia, dona de um bordel chiquésimo em São Paulo.
O comentário foi recebido com um pio de suspiro da coruja, que virou pra papagaio e disse:
-Eu bem que ia avisar: piranha tem é em todo lugar.
Próximo título: A máquina do mundo
[Desafio] O belíssimo dia em que o sol se levantou mas a manhã não nasceu
Árvore que voa não dá fruto, porque não se alimenta de matéria. Não cresce. Isso talvez explique a minha súbita e irremediável falta de criatividade. Onde já se viu escrever sem linha? Deus escreve certo por linhas tortas e eu, escrevo por linhas, quaisquer que sejam.
E a minha razão precisa responder a vários porquês. Minha árvore sem chão se alimenta de porquês. Eu tenho me alimentado de porquês e de toda sorte de besteiras, das que fazem mal a longo-prazo.
Ontem terminei aquele livro de que te falei. Terminei e joguei longe – não porque desgostei, pelo contrário – joguei longe porque também estava me deixando mal. Eu tenho sido masoquista nesse ponto: me agrada aquilo que me faz mal, de livros a porquês.
Meus porquês são minha nutrição e meu veneno.
Hoje o sol levantou, mas a manhã não nasceu, não para mim. Estava quente, eu sentia, mas eu me mantive de janelas fechadas e blecaute, no meu universo, pra evitar a claridade. Passei o dia à maquina de escrever, procurando o que te digitar. Se te digito, faço-o sem linhas. Se te escrevo, busco as minhas linhas.
Eis o meu problema: Ando sem linha de chão, sem linha de escrita e, portanto, digito.
A verdade, entretanto, é que não há problema. Por que? Porque não há. Eis tudo.
O meu universo não tem chão e nunca teve, mas hoje eu percebo que eu preciso dele, às vezes. Não que isso seja um problema. Eu já te disse: não há problema.
Não enquanto eu não estiver no chão e começar a andar na linha.
sábado, 8 de novembro de 2008
[Desafio] O belíssimo dia em que o sol se levantou e a manhã não nasceu
Na luz há fótons.
Os fótons são partículas elementares.
Eles trazem consigo a energia luminosa
E a energia eletromagnética
De todos os cumprimentos de onda.
2. Quarks
Quarks são pequenos e úteis.
Compõem os hádrons, dentre os quais estão prótons e nêutrons.
Down, up, charm, strange, top, bottom
São seus tipos.
3. Sol
O Sol é uma estrela.
Estrelas são enormes e
Massivas bolas de plasma.
4. Manhã
Manhã é a parte do dia em que
Nasce o Sol, ao leste.
5. Dia
Período de uma rotação da Terra em torno de seu eixo.
6. O dia do título
Foi quando Dona Helena, a primeira a acordar na aldeia, levantou-se do colchão macio e vazou para fora das cobertas quentes e viu que não havia luz. "Onde 'tão aqueles fótons da peste?", pensou com seus botões.
Foi aquele dia em que ela coçou o buço e logo viu que havia algo fora do lugar. "Opa," sussurrou para si própria, "onde será que 'tá aquela bolota de plasma dos diabo?" Foi até a janela, absoluta, anti-quântica, e tava "tudo um breu danado, meu bom Jesus amado!"
Nesse dia, seus ups e downs continuavam ups e downs, mas seu spin era strange. "Virge Maria, vai ver que o eixo emperrou?" Foi ver se havia óleo para eixos de rotação. Estava em falta, mas quem sabe o Seu Valdir tinha.
"Seu Valdir, acorda Seu Valdir", berrava Dona Helena. Acordou Dona Hermengarda, Dona Lisandra, Seu Jasão, Seu Jonas e a Laila. "Mas qu'é isso, Dona Helena, co'esses barulho a essa hora da manhã, a senhora bebeu, foi?"
"Que bebi que o que, Seu Valdir!", ela retrucou de volta. "Olha o céu, peste!"
"Eita ferro"
"Pois não é que 'tá tudo escuro, home!" Dona Hermengarda esganiçou. "Minha Santa Genoveva, será que deu problema na fusão de hélio?" Acordou o Seu Hélio. "Que barulheira é essa aqui nessa budega?"
"É que o Sol 'tá mangando de nós, Seu Hélio", Dona Helena explicou, arrazoada. "Escuta, Seu Valdir, heim, Seu Valdir, heim! O senhor não ia ter um óleo de eixo planetário aí não, né?" Fez um charme.
"Não é que sobrou da última vez?"
7. Saga
Eles viajaram até o templo de Atlas, onde bateram um papinho com o Beto. "Será que você podia ver a chave pra nós passar um oleozinho no eixo e o dia nascer?" Perguntou Dona Lisandra. "Ih, vai ser difícil, mulher", ele respondeu. "Tem que ir lá no departamento do Gal", ele disse, "mas eu acho que ele 'tá viajando, é".
"Tu não 'tá de broma co'a gente não, é?" Seu Jasão desafiou. "Que eu de broma ora veja lá minha cara de broma". Se meteram numa discussão, Seu Jonas os separou e disse: "Pára de brigar que a gente tem que ver de achar o protocolo com Seu Bór"
Foram até o escritório do Bór, mas ele estava almoçando. Quando, finalmente, ele chegou, todos fizeram grande festa. Ele lhes deu o protocolo, e a Laila, a mais jovenzinha, foi quem escreveu tudo com a letra redonda dela. "E agora?" Quis saber Dona Helena.
"Agora eu envio o protocola, oras. Sangue de Jesus tem poder, quanto papel, minha Nossa Senhora de Lourdes!"
8. Conclusão
Deu no que deu, conseguiram passar óleo no eixo do mundo, mas tão tarde que já era meio-dia.
E eu digo pro meu povo:
Essa história assim e assado,
Quem quiser ouvir de novo,
Vai ter que pagar dobrado!
Proposta:
"Os 11 motivos do jacaré"
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
[Desafio] O fim de uma era
Tomou graça das loucas do casal do cachorro; tomou ojeriza do cocô fedido, fedido. Tão enfim não mais, era grama, verde, loura, coisa, grama. Que ainda não tudo, coisas maiores viu! Viu mudanças, viu mudanças. O novo presidente, há lá levado consigo. Revolucionou ele, fez ainda mexida, sutil tanto quanto!
Sussussuou e fralaralou dos ventos, aquilo, que ventos! Levou mais banho foi, na água. Presenciou e sofreu com a limpeza; uma lufa-lufa baratébria; bradaria. Só que é paciente. Ter final é grama, verde, grama, velha. Esqueceu a outra parte, nina, e agora só lhe restou correr o resto do tempo em trepa.
Mas um dia acabou a piscina e os pés e o látex e a cerveja e o casal e o cocô e o presidente e os ventos e a grama, a que o homem veio aparar e levantou percevejo. Acabou a grama, verde, garapa, dilacerada, grama, morta.
O fim de uma era. O fim da era da grama. Aliás, outras gramas, mais verdes, estão por vir. Mais verdes, mais grama, mais centímetros. Se lhes baste que a espera!
Proposta:
(veja elucidação no post seguinte -- a proposta deste texto será a mesma que a do próximo)
domingo, 2 de novembro de 2008
[Desafio] O motorista e a omelete
Era seu primeiro dia sozinho em casa e até então tudo havia corrido bem, o que era bem lógico, pois acordara havia uns trinta e sete minutos. Como não morresse, tudo havia corrido bem. Ótimo.
O recado na geladeira era tentador: "Querido filho, mamãe foi ao médico e volta tarde. Tem arroz na geladeira. Asse uns nuggets para você. Te amo!", mas ele buscava mais.
O arroz, tudo bem, estava pronto. Mas como acompanhamento...
Recusava-se a preparar aqueles frios empanados no forno elétrico, apesar de já ter feito isso uma boa dezena de vezes.
Hoje era um dia especial. O dia da sua libertação, quando das suas mãos sairia o alimento necessário à sua vida. Épico!
Metódico como um cientista, o menino de 13 anos colocou sobre a bancada tudo o que precisava para sua aventura culinária: ovos, presunto, colher de pau, queijo, prato, manteiga, sal, frigideira e coragem.
Acender o fogão era simples: já havia visto a mãe fazê-lo várias vezes.
Findo o desafio de controlar o fogo (já se sentia tão superior aos homens das cavernas, o menino!), copiou com cuidado a memória dos gestos da mãe.
Nada havia de complicado. Precisou apenas pôr a manteiga na frigideira, colocar a frigideira no fogo, bater os ovos no prato (ai, que dor!), derramar com leveza os ovos batidos na frigideira, despejar um pouco de sal sobre os ovos batidos, esperar o ponto, virar a omelete e voilà! Estava pronto seu divino acompanhamento.
O resultado, para o pequeno, fora tão delicioso que, apesar da pouca experiência em cozinha, já não se considerava um reles "piloto de fogão".
Era um motorista!
Proposta:
O fim de uma era
[Desafio] O motorista e a omelete
-
Odair trabalhava naquela casa havia alguns anos. Recentemente, com a gravidez da patroa cada vez mais perto do fim, recebia extra pra ficar de prontidão todas as noites, em caso de alguma emergência. Como a gestação vinha sendo tranqüila e nada tinha acontecido, o motorista geralmente passava as horas dormindo no quartinho ao lado da garagem. Assim, foram precisas três ligações para o rádio para que Odair quebrasse sua rotina e acordasse, dizendo um oi rápido e sobressaltado.
- Odair...temos problemas.
- Aconteceu alguma coisa com a Dona Martha, patrão?
- Não exatamente, ela...ela..quer um omelete
- Ahn...desculpa a indelicadeza, Seu Roger, mas o senhor não acha que pra isso era melhor ir pra cozinha?
- Então, esse é o problema... Não tem ovo em casa- Odair ficou em silêncio, percebendo o que viria a seguir- Você se importaria de ir ao mercado?
-
Ir ao mercado seria uma coisa simples e fácil, não fossem alguns detalhes.
Naquela parte da cidade nada era perto a ponto de se poder ir a pé. Como se isso não fosse o suficiente, os ricos da região, como Seu Roger e Dona Martha, gostavam de ter suas mansões em lugares ainda mais longes e isolados. Em conseqüência, as compras da casa eram normalmente feitas por telefone, ou tinham um dia inteiro reservado para fazê-las.
Comprar um ovo naquelas situações era uma tarefa quase hercúlea. Olhando para o relógio, Odair viu que eram 3 horas da manhã. De um domingo. Suspirou e ajustou sua armadura - uniforme completo com gravata, luva, sapatos lustrosos e quepe - e partiu rumo ao seu primeiro trabalho.
-
Quando Odair encontrou um mercado 24 horas se sentiu muito sortudo. Tão sortudo que nem ligou para os olhares estranhos que recebeu dos funcionários, alguns deles quase dormindo recostados nas prateleiras. Terminou de depositar os ovos sobre o caixa e algo lhe ocorreu. Encostou o quepe no peito, pediu à caixa que esperasse e pegou o rádio.
- E então, Odair, 'tá chegando?
- Na verdade, não, 'tô no mercado ainda...mas é que..a patroa quer omelete de que?
- Como assim, Odair?
- Tem tudo que precisa na casa? Sabe como é né, senhor, omelete não se faz só de ovo...
-
Dirigiu muito mais rápido do que o recomendável - o pedido havia sido feito já há um tempo e ninguém queria uma criança nascendo com cara de ovo- e saiu do carro já passando um rádio para o chefe.
- 'Tô chegando co'os ovos, patrão!!- silêncio e suspiro pesado do outro lado e Odair parando no meio das escadas
- Que foi, Seu Roger? Dona Martha perdeu o desejo?
- Não, não, antes fosse. É a Rosa, Odair. Eu esqueci que a Rosa tá na casa dela hoje.
- ...e qual o problema nisso?
- eu não sei cozinhar.
-
Odair então se viu tirando o casaco e levantando as mangas, ligando o gás e arrumando as coisas na bancada. Olhou para tudo alguns minutos, viu a graça da situação e começou o segundo trabalho.
Quebrou três ovos num prato e misturou bem a clara e a gema com um garfo (movimentos circulares, movimentos circulares, movimentos circulares). Colocou a frigideira na primeira boca do fogão, adicionou um pouquinho do óleo e depositou metade do conteúdo do prato e, em seguida, os complementos. Arrumou pra que ficasse o mais redondinho possível, esperou um pouco e virou. Esperou mais um pouco e tirou da panela, botando num prato limpo. Colocou mais óleo e a segunda metade do conteúdo do primeiro prato e fez tudo de novo.
Sorriu para sua obra prima.
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Nem cinco minutos de fogo aceso depois, Seu Roger abriu a porta do quarto e se deparou com um Odair impecavelmente uniformizado carregando uma bandeja de prata com dois omeletes, um copo de suco de uva e alguns dos docinhos do pote da cozinha. Sorriu para o motorista, que também mostrava os dentes, e pegou a bandeja de sua mão, murmurando um obrigada e anunciando a esposa que seu 'desejo' havia chegado.
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Odair estava cansado e já com a gravata frouxa quando recebeu o que esperava ser o último rádio da noite lhe comunicando que fazia 'o melhor omelete do mundo', nas palavras de uma grávida faminta.
Olhou para a pia ainda desarrumada e sua barriga roncou.
Hora de fazer outra omelete.
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Proposta:
O belíssimo dia em que o sol se levantou e a manhã não nasceu
sábado, 1 de novembro de 2008
Primeiro grande desafio
Funcionará da seguinte forma, com as seguintes regras:
O blogueiro deverá sugerir um título para que o próximo postante possa desenvolver um texto (seja ele uma dissertação, um conto, uma crônica ou um poema) em cima da proposição.
1) A proposta só poderá ser feita após um texto pertencente ao desafio, salvo o primeiro.
2) A postagem do texto será feita com a seguinte formatação:
[Desafio] Título sugerido
Texto.
3) Outros textos, fora do desafio, poderão ser postados.
4) Limite de DOIS textos por título, seja ele da mesma pessoa ou de pessoas diferentes.
5) Aquele que postou a sugestão NÃO poderá se utilizar desta para participar do desafio.
Talvez depois.
Boa verborréia, meus queridos :)
