Desafio dos Títulos -Encerrado
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Saiu de casa em uma quarta-feira para comemorar bebendo o feriado. Quando veio a sexta e ele não voltou, desataram a procurar por bares e conhecidos. Encontraram o corpo já de um dia, esperando ser reconhecido.
Verteram-se algumas lágrimas e começaram a preparar o enterro, limpando o corpo e vestindo-o com roupas de homem de bem. Gravaram palavras dúbias na lápide e flores foram jogadas no caixão, mas o funeral não durou o suficiente para verem a terra acabar de cobrir a sepultura.
Não deixou muito, apenas algumas posses e saudades naqueles poucos que ligavam.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Bobeirinha trivial
O mago branco, imune à passagem dos séculos
Que, após um tempo, adquiriu hábitos ridículos
E um belo dia, após ajeitar seus óculos
Morreu, pois não havia palavra em -úculos.
¹ Espécie de cajado
domingo, 28 de setembro de 2008
Trechos de uma confissão
Sou teu, integralmente. Teu pertence, teu objeto, tua coisa.
Para sempre serei teu.
Tu és rei de mim, tu me governas.
Sou teu, inabalavelmente. Teu súdito, teu vassalo, tua plebe.
Para sempre serei teu.
Tu és corpo de mim, tu me constituis.
Sou teu, indissociavelmente. Teu pó, teu ar, tua sombra.
Para sempre serei teu.
(...)
Sim, expectorar faz bem. Amor é feito catarro. E enamoro é feito pneumonia.
15 Minutos
Eternidade não é o para sempre das crianças, nem o até que a morte nos separe.
Eternidade não é toda a experiência que se adquire antes que a vida diga "pare".
Eternidade não é krishna, e não é hare.
Eternidade não é o amor incondicional dos deuses ou o ódio inabalável dos demônios internos das nossas ambições pobres.
Eternidade não é um verso num poema de Vinicius.
Eternidade não é o impossível, o interminável, o indomável, o incomensurável, o inatingível, o intangível, o inacreditável.
Eternidade não é tudo, nem é nada.
Eternidade são quinze minutos.
domingo, 31 de agosto de 2008
Ficção
Foi como uma trovoada inesperada, num dia ensolarado, aquele olhar. Eles eram muito novos, os dois meninos, e não sabiam no que estavam se metendo.
Mas foi uma coisa tão magnética que não dava para não sentir. Dois pares de olhos ligados por um fio invisível de fascinação durante alguns segundos, tão mútuo, simultâneo, impossível de esconder.
Estende a mão. Não, não estende, não por enquanto. Fala alguma coisa, melhor não, melhor ficar de boca fechada. Aquilo ia durar para sempre, aquele momento, por mais momentâneo, aquele momento não ia acabar nunca. Não aquele sentimento, não aquela coisa, aquele quê indescritível do embasbaco. Seria um instante eterno, talhado para sempre na memória, nos olhos, nos corpos.
E, arrastados pelos pais, levados para longe do outro, sentiram a sensação se prolongar, como se ainda estivessem se observando inconseqüentemente, se estudando.
Era um shopping, onde eles estavam fazendo compras de natal. Era um dia quente, tomado pelo marasmo do mormaço, um daqueles dias em que o sofá, o sorvete, o ar condicionado tentam nos dissuadir de sair de casa. Há quem sucumba. Mas como os planos cósmicos nunca dão errado, os pais dos meninos são obstinados.
Enquanto iam por caminhos opostos, agora afastados por um préstito consumista, iam se consumindo de perguntas, de dúvidas, e, sobretudo, de uma sensação maravilhosa, diferente de tudo conhecido.
Uma espécie de gostar, misturado com querer, misturado com uma vontade danada de entender. Um sentimento de completo inacabado. A chave estava na fechadura, mas ainda não tinha sido virada.
Não se encontraram durante o resto do dia, mas essa não era a última vez em que se viriam. O cosmos é mais sábio que isso.
2. Segundo contato, palavras, medo
Apenas em fevereiro do ano seguinte se enxergaram de novo. Enquanto isso, passaram por um período de quaresma emocional difícil de agüentar, uma saudade dos diabos do desconhecido.
Não apagaram das memórias os rostos um do outro, na velha esperança pueril de encontrar a bola de gude no matagal. E todo dia pensaram naquele instante permanente, no dia em que se tornaram imortais um para o outro.
Era, novamente, um típico dia do verão carioca: abafado, insuportável. Estavam os dois na praia, com suas famílias. Quis o cosmos que suas barracas fossem vizinhas, e quis que se vissem. E se viram.
E quando se viram se transportaram para outro lugar, talvez uma outra dimensão, ou qualquer coisa do gênero. Estavam isolados, alheios a tudo em volta. Novamente, veio um silêncio breve e eterno.
“Oi”
“Oi”
Quanto receio, minha sacra misericórdia... Olha o que a gente bota nas cabeças das crianças hoje em dia...
“Eu me lembro de você”
“É, eu também. No shopping”
“É, no shopping”
Deu um passo à frente cada um. Vozes tímidas, pequeninas, numa imensidão de areia e gente e mar. Dava para sentir a tensão, o medo de errar, de falar besteira.
“Eu sou Gabriel”
“Eu sou Henrique”
3. Segundo contato, toque, medo
E apertaram as mãos. Mas não foram só suas mãos a se tocar. Foi muito mais. Ficaram tanto tempo ali, um segurando a mão do outro, sem balançar, que devem ter-lhes chamado a atenção várias vezes.
Quantos anos tinham? Onze?, doze? Já estava na hora.
4. Segundo contato, toque, júbilo
sábado, 30 de agosto de 2008
Ficção
Não há nada melhor que ser egoísta: comer o sorvete todo sozinho e não ter que oferecer para ninguém é bom demais! Por isso fantasiamos sós... Quando neguinho começa a pôr o dedo nas nossas fantasias, nas nossas ficções, nas nossas pseudo-verdades, nas nossas pessoas tão ímpares, rapidamente brota um orgulho que não sabíamos existir. “Tira o dedo dele que ele é meu”. É como sua irmãzinha querendo mudar o cabelo do seu boneco de Lego.
Por isso é tão bom escrever histórias de ficção. É como ter um oceano de Lego só pra você, esperando para ser montado.
Se o meu Lego te revoltar, lembre-se de que é só Lego, e simplesmente não brinque comigo. Vai ver se tem Playmobil, vai.
Luta
Com a mesma desconfiança se encaravam, um no olho do outro, desafiadores, prepotentes. Não falavam a mesma língua, então não falavam, só rondavam, descrevendo um círculo de poeira e antecipação que umedecia o ar e secava as gargantas dos espectadores ansiosos.
A tensão era tão grande que cada passo mais ruidoso, cada respiro mais longo e cada olhar mais firme traziam uma cadeia de interjeições de assombro enquanto os combatentes apertavam com mais decisão as armas, preparavam a boca para pronunciar as palavras, cada um em seu idioma.
Era quase possível ouvir as folhas das árvores, tremendo de medo de fogo e de vento, sussurrando as últimas preces para seus espíritos superiores, que riam da impotência das súditas e da inevitabilidade da batalha iminente, mais próxima com cada milímetro que as sandálias de couro ousavam progredir.
E foi o estalido de uma fogueira na aldeia que desencadeou tudo. Um clique surdo, que soava como os ruídos dos discos pretos que traziam os ciganos em suas máquinas fantásticas.
Em menos de um segundo, ambos tinham as armas em punho: um apontava no alto uma espada fina, tão leve que fazia a platéia se perguntar como a lâmina podia estar tão imóvel, refletindo um fio de luz preguiçoso que ofuscava as pessoas a um certo ângulo; o outro movia duas machadinhas que acompanhavam o ritmo estranhamente calmo de sua respiração.
Agora não mais andavam: estavam parados, esperando o sinal do vento para começar. O que fariam, exatamente, seria surpresa para todos, inclusive eles mesmos. Os mais experientes viam no brilho inconstante dos olhos do espadachim que flertava com um salto a meia altura. Se o adversário percebera ou não tal intenção era incerto, pois fora ensinado a não demonstrar.
O vento soprou mais forte e era esse o sinal. O homem que empunhava a espada fina deu um salto a meia altura, de modo que seus joelhos ficaram à altura do tórax do inimigo, que, habilmente, se esquivou, jogando as costas ao chão, apoiando-se com uma machadinha, erguendo a outra, cortando a brisa cegamente.
Pronunciou meia dúzia de palavras na língua estrangeira e o vento era águia e cravou suas garras longas e inclementes na carne ingênua do espadachim precipitado, que gritou de dor ao sentir a gelidez do ciclone que embrulhava seu corpo impotente como um pacote sem vida, enchia seus pulmões com uma frieza inumana e fazia-o pender pateticamente no ar, para o desgosto da claque de aldeões que acompanhava a luta.
Em pouco tempo, a pele do derrotado tomou uma cor de azul acinzentado fúnebre, e qualquer um que prestasse atenção em seus lábios veria uma derradeira tentativa de fazer saltar do fogo qualquer coisa, mas a essa altura já não era possível mover a boca para formar palavras; o único som a sair foi um último e humilhado grito de dor e raiva, acompanhado de uma nuvem branca que fugia de sua boca.
Ainda apoiado em uma das machadinhas, o vencedor acompanhou a majestade grotesca da cena com os olhos semi-cerrados de um campeão principiante, não acostumado à vitória e às implicações mórbidas do júbilo sem sentido de pessoas sanguinárias, dispostas a parabenizar um estrangeiro se exibisse o espetáculo por que clamavam, mas com o tempo a glória de vencer obumbraria o absurdo da luta em si.
Melado de suor e areia fina, levantou-se para receber os cumprimentos do público no mesmo instante em que um corpo cinza caiu no chão como uma pedra levantando uma névoa indiferente. Poucos pareceram se importar genuinamente com o homem, e apenas duas mulheres lhe deram alguma atenção. Uma delas chorava doentiamente, devia ser a mãe, e a outra tentava consolá-la, mas parecia ter mais apreço pela mulher desesperada que pelo combatente morto.
Dentro de seu vocabulário deficiente do idioma local, conseguiu esboçar diversos obrigados com um sotaque desengonçado. Uma criança empolgada ofereceu-lhe um bicho malacodermo, que se movia nervosamente entre os dedos superiores do menino, que não passava de seis anos. O gesto fez as pessoas repetirem insistentemente uma palavra ao homem, que nada compreendia. Fizeram um gesto, no entanto, inconfundível: apontaram para a boca enquanto mastigavam ar.
Apesar do asco que o animal lhe provocava, sentiu-se impelido a atender aos pedidos, uma vez que vencera uma luta na aldeia deles e precisava demonstrar bravura. Ele tomou na mão uma criatura surpreendentemente quente e esperadamente escorregadia e a colocou na boca com um movimento só. O gosto era bom, mas a textura fazia-o sentir as tripas se revirarem. Engoliu de uma vez o que quer que fosse, e sorriu orgulhoso para as crianças alegres e para os adultos satisfeitos com educação do forasteiro.
Enquanto isso, uma terceira mulher, bem mais velha, se juntou às outras duas. Ela untou o corpo cinzento com uma espécie de malagma, que rapidamente fez sua pele reganhar a cor e a vivacidade. Como um autômato, nascia adulto, e tomava ciência do corpo e do ambiente. A mulher que antes chorava descontroladamente agora dava beijos alegres nas bochechas do homem, prostrado no chão. Assim que recobrou os sentidos, foi atingido por uma dor enorme, e agonizou na areia por um tempo. Levaram-no para dentro de uma cabana, e não se soube dele por dois dias.
Naquela noite, riram com a pantomima profissional dos ciganos por um preço justo, beberam e comeram, enquanto o derrotado agonizava no quarto, solitário, escuro, derrotado. Derrotado.
