O amor é um embuste carcomido,
Que digerido e podre e vão brinquedo,
Não é que creófilo, tolo medo
Da idiotia e do esperar já exaurido.
Eternidade rasa de veneno!
Odioso alvo pranto, é anelo fundo...
Choroso negro júbilo, é imundo...
Crassa bondade do embasbaco pleno...
É mistifório onusto de penumbra,
De que me advertiu sábio histrião:
Hecatombe que a má esperança obumbra!
Amor: inópia do espírito vão,
Sincero badulaque que retumba,
Última prova viva de estar são!
Desafio da Última Linha
Acompanhe aqui as sugestões de cada um:
Desafio dos Títulos -Encerrado
domingo, 19 de outubro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Morreu, ninguém sabe ao certo quando ou como, largado e bêbedo num meio-fio qualquer.
Saiu de casa em uma quarta-feira para comemorar bebendo o feriado. Quando veio a sexta e ele não voltou, desataram a procurar por bares e conhecidos. Encontraram o corpo já de um dia, esperando ser reconhecido.
Verteram-se algumas lágrimas e começaram a preparar o enterro, limpando o corpo e vestindo-o com roupas de homem de bem. Gravaram palavras dúbias na lápide e flores foram jogadas no caixão, mas o funeral não durou o suficiente para verem a terra acabar de cobrir a sepultura.
Não deixou muito, apenas algumas posses e saudades naqueles poucos que ligavam.
Saiu de casa em uma quarta-feira para comemorar bebendo o feriado. Quando veio a sexta e ele não voltou, desataram a procurar por bares e conhecidos. Encontraram o corpo já de um dia, esperando ser reconhecido.
Verteram-se algumas lágrimas e começaram a preparar o enterro, limpando o corpo e vestindo-o com roupas de homem de bem. Gravaram palavras dúbias na lápide e flores foram jogadas no caixão, mas o funeral não durou o suficiente para verem a terra acabar de cobrir a sepultura.
Não deixou muito, apenas algumas posses e saudades naqueles poucos que ligavam.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Bobeirinha trivial
Eis que surge ele, brandindo dois báculos¹
O mago branco, imune à passagem dos séculos
Que, após um tempo, adquiriu hábitos ridículos
E um belo dia, após ajeitar seus óculos
Morreu, pois não havia palavra em -úculos.
¹ Espécie de cajado
O mago branco, imune à passagem dos séculos
Que, após um tempo, adquiriu hábitos ridículos
E um belo dia, após ajeitar seus óculos
Morreu, pois não havia palavra em -úculos.
¹ Espécie de cajado
domingo, 28 de setembro de 2008
Trechos de uma confissão
Tu és dono de mim, tu me possuis.
Sou teu, integralmente. Teu pertence, teu objeto, tua coisa.
Para sempre serei teu.
Tu és rei de mim, tu me governas.
Sou teu, inabalavelmente. Teu súdito, teu vassalo, tua plebe.
Para sempre serei teu.
Tu és corpo de mim, tu me constituis.
Sou teu, indissociavelmente. Teu pó, teu ar, tua sombra.
Para sempre serei teu.
(...)
Sim, expectorar faz bem. Amor é feito catarro. E enamoro é feito pneumonia.
Sou teu, integralmente. Teu pertence, teu objeto, tua coisa.
Para sempre serei teu.
Tu és rei de mim, tu me governas.
Sou teu, inabalavelmente. Teu súdito, teu vassalo, tua plebe.
Para sempre serei teu.
Tu és corpo de mim, tu me constituis.
Sou teu, indissociavelmente. Teu pó, teu ar, tua sombra.
Para sempre serei teu.
(...)
Sim, expectorar faz bem. Amor é feito catarro. E enamoro é feito pneumonia.
15 Minutos
Entendo hoje o que é eternidade.
Eternidade não é o para sempre das crianças, nem o até que a morte nos separe.
Eternidade não é toda a experiência que se adquire antes que a vida diga "pare".
Eternidade não é krishna, e não é hare.
Eternidade não é o amor incondicional dos deuses ou o ódio inabalável dos demônios internos das nossas ambições pobres.
Eternidade não é um verso num poema de Vinicius.
Eternidade não é o impossível, o interminável, o indomável, o incomensurável, o inatingível, o intangível, o inacreditável.
Eternidade não é tudo, nem é nada.
Eternidade são quinze minutos.
Eternidade não é o para sempre das crianças, nem o até que a morte nos separe.
Eternidade não é toda a experiência que se adquire antes que a vida diga "pare".
Eternidade não é krishna, e não é hare.
Eternidade não é o amor incondicional dos deuses ou o ódio inabalável dos demônios internos das nossas ambições pobres.
Eternidade não é um verso num poema de Vinicius.
Eternidade não é o impossível, o interminável, o indomável, o incomensurável, o inatingível, o intangível, o inacreditável.
Eternidade não é tudo, nem é nada.
Eternidade são quinze minutos.
domingo, 31 de agosto de 2008
Ficção
1. Primeiro Contato, olhar, deslumbre
Foi como uma trovoada inesperada, num dia ensolarado, aquele olhar. Eles eram muito novos, os dois meninos, e não sabiam no que estavam se metendo.
Mas foi uma coisa tão magnética que não dava para não sentir. Dois pares de olhos ligados por um fio invisível de fascinação durante alguns segundos, tão mútuo, simultâneo, impossível de esconder.
Estende a mão. Não, não estende, não por enquanto. Fala alguma coisa, melhor não, melhor ficar de boca fechada. Aquilo ia durar para sempre, aquele momento, por mais momentâneo, aquele momento não ia acabar nunca. Não aquele sentimento, não aquela coisa, aquele quê indescritível do embasbaco. Seria um instante eterno, talhado para sempre na memória, nos olhos, nos corpos.
E, arrastados pelos pais, levados para longe do outro, sentiram a sensação se prolongar, como se ainda estivessem se observando inconseqüentemente, se estudando.
Era um shopping, onde eles estavam fazendo compras de natal. Era um dia quente, tomado pelo marasmo do mormaço, um daqueles dias em que o sofá, o sorvete, o ar condicionado tentam nos dissuadir de sair de casa. Há quem sucumba. Mas como os planos cósmicos nunca dão errado, os pais dos meninos são obstinados.
Enquanto iam por caminhos opostos, agora afastados por um préstito consumista, iam se consumindo de perguntas, de dúvidas, e, sobretudo, de uma sensação maravilhosa, diferente de tudo conhecido.
Uma espécie de gostar, misturado com querer, misturado com uma vontade danada de entender. Um sentimento de completo inacabado. A chave estava na fechadura, mas ainda não tinha sido virada.
Não se encontraram durante o resto do dia, mas essa não era a última vez em que se viriam. O cosmos é mais sábio que isso.
2. Segundo contato, palavras, medo
Apenas em fevereiro do ano seguinte se enxergaram de novo. Enquanto isso, passaram por um período de quaresma emocional difícil de agüentar, uma saudade dos diabos do desconhecido.
Não apagaram das memórias os rostos um do outro, na velha esperança pueril de encontrar a bola de gude no matagal. E todo dia pensaram naquele instante permanente, no dia em que se tornaram imortais um para o outro.
Era, novamente, um típico dia do verão carioca: abafado, insuportável. Estavam os dois na praia, com suas famílias. Quis o cosmos que suas barracas fossem vizinhas, e quis que se vissem. E se viram.
E quando se viram se transportaram para outro lugar, talvez uma outra dimensão, ou qualquer coisa do gênero. Estavam isolados, alheios a tudo em volta. Novamente, veio um silêncio breve e eterno.
“Oi”
“Oi”
Quanto receio, minha sacra misericórdia... Olha o que a gente bota nas cabeças das crianças hoje em dia...
“Eu me lembro de você”
“É, eu também. No shopping”
“É, no shopping”
Deu um passo à frente cada um. Vozes tímidas, pequeninas, numa imensidão de areia e gente e mar. Dava para sentir a tensão, o medo de errar, de falar besteira.
“Eu sou Gabriel”
“Eu sou Henrique”
3. Segundo contato, toque, medo
E apertaram as mãos. Mas não foram só suas mãos a se tocar. Foi muito mais. Ficaram tanto tempo ali, um segurando a mão do outro, sem balançar, que devem ter-lhes chamado a atenção várias vezes.
Quantos anos tinham? Onze?, doze? Já estava na hora.
4. Segundo contato, toque, júbilo
Foi como uma trovoada inesperada, num dia ensolarado, aquele olhar. Eles eram muito novos, os dois meninos, e não sabiam no que estavam se metendo.
Mas foi uma coisa tão magnética que não dava para não sentir. Dois pares de olhos ligados por um fio invisível de fascinação durante alguns segundos, tão mútuo, simultâneo, impossível de esconder.
Estende a mão. Não, não estende, não por enquanto. Fala alguma coisa, melhor não, melhor ficar de boca fechada. Aquilo ia durar para sempre, aquele momento, por mais momentâneo, aquele momento não ia acabar nunca. Não aquele sentimento, não aquela coisa, aquele quê indescritível do embasbaco. Seria um instante eterno, talhado para sempre na memória, nos olhos, nos corpos.
E, arrastados pelos pais, levados para longe do outro, sentiram a sensação se prolongar, como se ainda estivessem se observando inconseqüentemente, se estudando.
Era um shopping, onde eles estavam fazendo compras de natal. Era um dia quente, tomado pelo marasmo do mormaço, um daqueles dias em que o sofá, o sorvete, o ar condicionado tentam nos dissuadir de sair de casa. Há quem sucumba. Mas como os planos cósmicos nunca dão errado, os pais dos meninos são obstinados.
Enquanto iam por caminhos opostos, agora afastados por um préstito consumista, iam se consumindo de perguntas, de dúvidas, e, sobretudo, de uma sensação maravilhosa, diferente de tudo conhecido.
Uma espécie de gostar, misturado com querer, misturado com uma vontade danada de entender. Um sentimento de completo inacabado. A chave estava na fechadura, mas ainda não tinha sido virada.
Não se encontraram durante o resto do dia, mas essa não era a última vez em que se viriam. O cosmos é mais sábio que isso.
2. Segundo contato, palavras, medo
Apenas em fevereiro do ano seguinte se enxergaram de novo. Enquanto isso, passaram por um período de quaresma emocional difícil de agüentar, uma saudade dos diabos do desconhecido.
Não apagaram das memórias os rostos um do outro, na velha esperança pueril de encontrar a bola de gude no matagal. E todo dia pensaram naquele instante permanente, no dia em que se tornaram imortais um para o outro.
Era, novamente, um típico dia do verão carioca: abafado, insuportável. Estavam os dois na praia, com suas famílias. Quis o cosmos que suas barracas fossem vizinhas, e quis que se vissem. E se viram.
E quando se viram se transportaram para outro lugar, talvez uma outra dimensão, ou qualquer coisa do gênero. Estavam isolados, alheios a tudo em volta. Novamente, veio um silêncio breve e eterno.
“Oi”
“Oi”
Quanto receio, minha sacra misericórdia... Olha o que a gente bota nas cabeças das crianças hoje em dia...
“Eu me lembro de você”
“É, eu também. No shopping”
“É, no shopping”
Deu um passo à frente cada um. Vozes tímidas, pequeninas, numa imensidão de areia e gente e mar. Dava para sentir a tensão, o medo de errar, de falar besteira.
“Eu sou Gabriel”
“Eu sou Henrique”
3. Segundo contato, toque, medo
E apertaram as mãos. Mas não foram só suas mãos a se tocar. Foi muito mais. Ficaram tanto tempo ali, um segurando a mão do outro, sem balançar, que devem ter-lhes chamado a atenção várias vezes.
Quantos anos tinham? Onze?, doze? Já estava na hora.
4. Segundo contato, toque, júbilo
sábado, 30 de agosto de 2008
Ficção
Não há nada melhor que ser egoísta: comer o sorvete todo sozinho e não ter que oferecer para ninguém é bom demais! Por isso fantasiamos sós... Quando neguinho começa a pôr o dedo nas nossas fantasias, nas nossas ficções, nas nossas pseudo-verdades, nas nossas pessoas tão ímpares, rapidamente brota um orgulho que não sabíamos existir. “Tira o dedo dele que ele é meu”. É como sua irmãzinha querendo mudar o cabelo do seu boneco de Lego.
Por isso é tão bom escrever histórias de ficção. É como ter um oceano de Lego só pra você, esperando para ser montado.
Se o meu Lego te revoltar, lembre-se de que é só Lego, e simplesmente não brinque comigo. Vai ver se tem Playmobil, vai.
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