Ele a levou para o seu reino, onde foram recebidos com muita alegria e viveram por muito tempo depois disso, felizes e satisfeitos. Ou assim deveria terminar a história. E assim muitos acreditam ter terminado. Mas eu vou lhes contar a verdade. Uma parte da verdade vocês já sabem: príncipe conhece donzela indefesa, salva donzela indefesa, pede donzela indefesa em casamento e a leva num cavalo branco para o reino para, um dia, torná-la rainha. Mas tem toda essa história de felicidade; sabe, eu sou um cínico. Eu não acredito nessa alegria idílica, pássaros fazendo vestidos, abóboras virando carruagens.
Eu escreveria assim: ele a levou para o seu reino, onde foram recebidos com muito desgosto, porque ela era uma plebeia tosca e sem noção, e ele parecia não ver, chamaram-na de parvenue, de nouvelle riche, de alpinista social (alguns diziam que tinha maquiavelicamente fingido o incidente com o dragão para chamar a atenção do príncipe, que já o planejava há meses). Ela se recusava a satisfazer seus pedidos na cama, e era obrigada por ele, e sempre que se mostrava descontente ele dizia: "Você esqueceu de onde vem, mulher? Sabe que eu te ponho pra fora daqui em dois segundos, sua vagabunda! As pérolas, as sedas, os rubis, tudo é de família, você sai daqui tão pobre quanto eu te encontrei!" Ela era obrigada a se calar e consentir, fazendo as vontades do esposo.
Um dia, ela me aparece grávida. A rainha, a sogra from hell da pobre donzela, dando alfinetadas a torto e a direito, dizendo-lhe que não iria admitir um neto plebeu, e que era melhor que o entregasse a ela a fim de que fosse criado pela majestade. Nove meses depois, nasceu o filho caolho da plebeia, e a rainha foi às forras. Com alguns meses de vida do pequeno, a pobre donzela rezou para que aparecesse sua fada madrinha, e lhe pediu ajuda. A fada madrinha conjurou, então, um fuzil AR15, e a pobre donzela chacinou o castelo inteiro, deu aos cadáveres uma poção mágica e criou um exército de zumbis.
E viveram felizes para sempre.
Desafio da Última Linha
Acompanhe aqui as sugestões de cada um:
Desafio dos Títulos -Encerrado
domingo, 9 de janeiro de 2011
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Frases para o Desafio da Última Linha
Frases da Cássia
1) "E vira o coco Sinhá!"
2) "Havia um motivo para contar essa história, mas , temporariamente, fugiu da mente do autor."
3) "Ele a levou para o seu reino, onde foram recebidos com muita alegria e viveram por muito tempo depois disso, felizes e satisfeitos."
4) "Pescador da barca bela, inda é tempo, foge dela, foge dela, ó pescador!"
Frases do Pedro
1) "Havia acabado o dinheiro que Saturno deixou pra comida."
2) "A visão permite pensar, finalmente."
3) "No meigo olhar da loura Doroteia."
4) "Contra ti me atirarei, invicta e insubmissa, ó morte."
Frases do Victor
1) "Queria aproveitar tudo, muito, sempre."
2) "Lá de baixo chegava o eco amortecido do piano e do violino"
3) "[Mas] Ele comportava um detalhe que me alegrou imensamente: estava escrito em japonês."
4) "E nas mimosas lanternas decorativas somente sobressai seu esqueleto."
Desafio da Última Linha
Bom, como o desafio dos títulos acabou faz tempo e o dos neologismos parece não ter vingado, chegou a hora de propor um novo.
Regras
1) Cada um escolhe 4 frases finais de textos literários (romances, contos, poemas, etc). As frases escolhidas devem ter diferentes níveis de dificuldade: fácil, médio, difícil e muito difícil.
2) Das 12 frases escolhidas, cada participante deve selecionar 4 frases, da seguinte maneira:
- Não pode selecionar suas próprias frases
- Deve selecionar 2 frases de cada um dos outros participantes
Ex: Eu, Cássia, seleciono 4 frases, 2 do Pedro e 2 do Victor
3) O participante então vai escrever 4 textos, um para cada frase. A frase escolhida deve ser a primeira do novo texto.
Ou seja, se a frase final escolhida for "Ele saiu." o texto novo começa com "Ele saiu."
4) Não é permitido adicionar nada antes da frase. Da mesma forma, o ponto final deve ser respeitado.
Ex: -Frase: Ele saiu.
"Ele saiu. Depois disso...."
5) A fonte das frases será revelada apenas após o fim do desafio, evitando que os participantes busquem inspiração na obra original, ou tentem continuá-la de alguma forma.
Rodada Bônus
- Cada participante escreve um texto utilizando uma das frases que ele próprio escolheu no inicio.
E o desafio começa...JÁ!
p.s.: Alguma sugestão de nome pro desafio, meninos?
Regras
1) Cada um escolhe 4 frases finais de textos literários (romances, contos, poemas, etc). As frases escolhidas devem ter diferentes níveis de dificuldade: fácil, médio, difícil e muito difícil.
2) Das 12 frases escolhidas, cada participante deve selecionar 4 frases, da seguinte maneira:
- Não pode selecionar suas próprias frases
- Deve selecionar 2 frases de cada um dos outros participantes
Ex: Eu, Cássia, seleciono 4 frases, 2 do Pedro e 2 do Victor
3) O participante então vai escrever 4 textos, um para cada frase. A frase escolhida deve ser a primeira do novo texto.
Ou seja, se a frase final escolhida for "Ele saiu." o texto novo começa com "Ele saiu."
4) Não é permitido adicionar nada antes da frase. Da mesma forma, o ponto final deve ser respeitado.
Ex: -Frase: Ele saiu.
"Ele saiu. Depois disso...."
5) A fonte das frases será revelada apenas após o fim do desafio, evitando que os participantes busquem inspiração na obra original, ou tentem continuá-la de alguma forma.
Rodada Bônus
- Cada participante escreve um texto utilizando uma das frases que ele próprio escolheu no inicio.
E o desafio começa...JÁ!
p.s.: Alguma sugestão de nome pro desafio, meninos?
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
domingo, 10 de outubro de 2010
Naquela noite, ouvindo músicas tristes, ela pensava na vida pelo que seria a tri-milionésima vez. O tom dos pensamentos era o mesmo da trilha sonora, e ela se viu lembrando das tantas coisas que não completou, que não viveu, que não sentiu.
O ritmo e o tempo da canção cresciam nela e ela sentiu o coração apertar ao mesmo tempo em que sua garganta procurou pronunciar as palavras e seus olhos desejaram uma lágrima que não vinha. E que não viria, pois não era a primeira e nem a segunda, mas sim a milionésima vez que aquilo lhe ocorria e o final era sempre o mesmo.
Ela desolada, o olhar fixo e perdido, a expressão melancólica e o pranto que não vinha.
E como mil vezes antes pensou que era daquela forma que seria, que não dava para fugir daquele meio que se meteu. Mas resolveu, como outras 350 vezes, que iria mudar, que cada passo seria uma mudança, que cada gesto seria em direção a uma nova vida. E sorriu. Um sorriso que não era forte, mas que tinha uma determinação e um brilho cálido e pálido, e que seria aquilo que a faria dormir nessa noite.
Sorriu de novo e esfregou as pálpebras. Repetiu a música. No peito o coração ainda um pouco apertado, nos olhos um resto de desejo de chorar, mas por dentro um calor renovado que a acalmava e que carregaria até a manhã. Ou, talvez, pra sempre.
O ritmo e o tempo da canção cresciam nela e ela sentiu o coração apertar ao mesmo tempo em que sua garganta procurou pronunciar as palavras e seus olhos desejaram uma lágrima que não vinha. E que não viria, pois não era a primeira e nem a segunda, mas sim a milionésima vez que aquilo lhe ocorria e o final era sempre o mesmo.
Ela desolada, o olhar fixo e perdido, a expressão melancólica e o pranto que não vinha.
E como mil vezes antes pensou que era daquela forma que seria, que não dava para fugir daquele meio que se meteu. Mas resolveu, como outras 350 vezes, que iria mudar, que cada passo seria uma mudança, que cada gesto seria em direção a uma nova vida. E sorriu. Um sorriso que não era forte, mas que tinha uma determinação e um brilho cálido e pálido, e que seria aquilo que a faria dormir nessa noite.
Sorriu de novo e esfregou as pálpebras. Repetiu a música. No peito o coração ainda um pouco apertado, nos olhos um resto de desejo de chorar, mas por dentro um calor renovado que a acalmava e que carregaria até a manhã. Ou, talvez, pra sempre.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
O herege e o pio
"Na própria bíblia é dito que a bíblia é o livro sagrado", retrucou o pio, encurralado.
"Naturalmente. Seria uma puta estupidez se quem escreveu a bíblia não tivesse posto lá que a bíblia é sagrada. Não diz em nenhum outro lugar".
"Como assim 'quem escreveu a bíblia'? A bíblia não foi escrita por uma pessoa, foi escrita por Deus".
"E qual caneta Deus usou? E que tipo de papel ele usou?"
"Ele é Deus, não precisa de papel e caneta. Aquela é palavra de Deus, é o que eu quis dizer".
"Qual palavra?" O herege sorriu. "Você sabe que Jesus falava aramaico, o Antigo Testamento foi escrito em hebraico, o novo testamento em grego, e depois foi tudo traduzido junto pro grego, e depois pro latim, e depois pro galaico-português, e depois pro português moderno e depois ainda adaptado pro português brasileiro? Qual dessas línguas falava Deus?"
"Todas"
"Deus era um poliglota?"
"Um o quê?"
I rest my case.
"Naturalmente. Seria uma puta estupidez se quem escreveu a bíblia não tivesse posto lá que a bíblia é sagrada. Não diz em nenhum outro lugar".
"Como assim 'quem escreveu a bíblia'? A bíblia não foi escrita por uma pessoa, foi escrita por Deus".
"E qual caneta Deus usou? E que tipo de papel ele usou?"
"Ele é Deus, não precisa de papel e caneta. Aquela é palavra de Deus, é o que eu quis dizer".
"Qual palavra?" O herege sorriu. "Você sabe que Jesus falava aramaico, o Antigo Testamento foi escrito em hebraico, o novo testamento em grego, e depois foi tudo traduzido junto pro grego, e depois pro latim, e depois pro galaico-português, e depois pro português moderno e depois ainda adaptado pro português brasileiro? Qual dessas línguas falava Deus?"
"Todas"
"Deus era um poliglota?"
"Um o quê?"
I rest my case.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
1. O mago (Le Bateleur)
Apenas a aparência do homem que chegava à cidadela aquela noite já seria suficiente para justificar a movimentação que lá haveria por tanto tempo.
Destoava completamente de qualquer habitante; a começar pelos cabelos louros que cascateavam do enorme chapelão, cabelos que em nada se assemelhavam aos tufos negros e quase imóveis da cabeça dos cidadãos, salvo talvez pela sua composição química, isso se admitirmos, frente a tanta diferença, ser o homem da mesma espécie dos que o recebiam – com riso, espanto ou ambos.
As roupas de cores fortes que vestia também eram de grande estranhamento e destaque se postas ao lado da cinzez das mantas e capuzes usuais da região.
Foi sem se incomodar com os comentários, fofoquetas e burburinhos que ele se instalou numa hospedaria qualquer. Não dormiu, não era desses: só se permitiu descansar da viagem que fizera.
Cedo, pouco depois de iniciar o dia, partiu com sua bagagem (duas grandes e pesadas malas de mão) para o mercado aberto da cidadela.
Lá, de uma mala, não tirou mais do que alguns pedaços de madeira, com os quais improvisou uma mesa, sobre a qual pôs uma das malas, da qual tirou uma sineta, a
qual tocou aos quatro cantos, de modo a atrair a atenção para si. Mais ainda.
E já se formava uma discreta plateia (sim, discreta porque o que gritava em cores era ele), ávida para saber o que trazia tão distinto jovem.
Então, ele tirou da mala sobre a mesa um globo azul, que segurou por meio de um fio.
Mostrou-o com certo mistério à multidão. Quando todos já não podiam se conter de curiosidade, o homem deu um pequeno tapa no objeto, de modo que este se pôs a girar.
À medida que girava, sua superfície se transformava. Do azul, surgia uma tímida mancha verde, que aos poucos se expandia e, ao estar já enorme, se rompeu. E as manchas verdes iam lentamente se tornando acinzentadas, umas mais do que as outras.
Algumas manchas, as do topo e do fundo, de verdes, faziam-se brancas.
O público fitava maravilhado a criação do homem. Se era mágico o espetáculo que ele trazia, era ainda mais mágico ver o olhar de todos, atentos.
E, de vez em quando, ouviam-se alguns estalos vindos da invenção, que tomavam as pessoas de surpresa – e de um certo temor.
Luzes saíam do cinza. Do azul se fazia o preto. E o espetáculo de cor, luz e secos sons era de acelerar o coração.
Foi quando, com um gesto rápido com a mão livre, o homem pediu para que as pessoas se afastassem. Obedeceram, mas a tensão já estava formada: e agora? O que é que essa máquina vai fazer?
O globo foi se tornando arroxeado por completo. Uniformizou-se, como se uma névoa se apoderasse de sua superfície. E a névoa passou a trocar de cor de forma rápida e constante. Verde, vermelho, amarelo, roxo, cinza, preto, azul, branco, verde de novo, roxo de novo, rosa, vermelho, vermelho, vermelho, vermelho e
Explosão. O globo irrompeu num alto estalido, culminando numa espantosa apresentação pirotécnica, recebida com aplausos calorosos que se recuperavam do susto.
Não é preciso dizer que a mercadoria daquele homem foi um sucesso e que logo após já havia dezenas de pessoas – inclusive mercadores locais – a se estapear para comprar um exemplar para si.
O estoque, que não era extenso, não durou muito, e o homem partiu, sorrindo, sob uma chuva de aplausos e gritos entusiasmados (em especial daqueles que conseguiram adquirir o joguete).
Como era de se esperar, os globos vendidos logo desapareceram, mas perduraria para sempre, naquela cidadezinha, a lembrança daquele homem tão esquisito e do que ali havia começado.
Destoava completamente de qualquer habitante; a começar pelos cabelos louros que cascateavam do enorme chapelão, cabelos que em nada se assemelhavam aos tufos negros e quase imóveis da cabeça dos cidadãos, salvo talvez pela sua composição química, isso se admitirmos, frente a tanta diferença, ser o homem da mesma espécie dos que o recebiam – com riso, espanto ou ambos.
As roupas de cores fortes que vestia também eram de grande estranhamento e destaque se postas ao lado da cinzez das mantas e capuzes usuais da região.
Foi sem se incomodar com os comentários, fofoquetas e burburinhos que ele se instalou numa hospedaria qualquer. Não dormiu, não era desses: só se permitiu descansar da viagem que fizera.
Cedo, pouco depois de iniciar o dia, partiu com sua bagagem (duas grandes e pesadas malas de mão) para o mercado aberto da cidadela.
Lá, de uma mala, não tirou mais do que alguns pedaços de madeira, com os quais improvisou uma mesa, sobre a qual pôs uma das malas, da qual tirou uma sineta, a
qual tocou aos quatro cantos, de modo a atrair a atenção para si. Mais ainda.
E já se formava uma discreta plateia (sim, discreta porque o que gritava em cores era ele), ávida para saber o que trazia tão distinto jovem.
Então, ele tirou da mala sobre a mesa um globo azul, que segurou por meio de um fio.
Mostrou-o com certo mistério à multidão. Quando todos já não podiam se conter de curiosidade, o homem deu um pequeno tapa no objeto, de modo que este se pôs a girar.
À medida que girava, sua superfície se transformava. Do azul, surgia uma tímida mancha verde, que aos poucos se expandia e, ao estar já enorme, se rompeu. E as manchas verdes iam lentamente se tornando acinzentadas, umas mais do que as outras.
Algumas manchas, as do topo e do fundo, de verdes, faziam-se brancas.
O público fitava maravilhado a criação do homem. Se era mágico o espetáculo que ele trazia, era ainda mais mágico ver o olhar de todos, atentos.
E, de vez em quando, ouviam-se alguns estalos vindos da invenção, que tomavam as pessoas de surpresa – e de um certo temor.
Luzes saíam do cinza. Do azul se fazia o preto. E o espetáculo de cor, luz e secos sons era de acelerar o coração.
Foi quando, com um gesto rápido com a mão livre, o homem pediu para que as pessoas se afastassem. Obedeceram, mas a tensão já estava formada: e agora? O que é que essa máquina vai fazer?
O globo foi se tornando arroxeado por completo. Uniformizou-se, como se uma névoa se apoderasse de sua superfície. E a névoa passou a trocar de cor de forma rápida e constante. Verde, vermelho, amarelo, roxo, cinza, preto, azul, branco, verde de novo, roxo de novo, rosa, vermelho, vermelho, vermelho, vermelho e
Explosão. O globo irrompeu num alto estalido, culminando numa espantosa apresentação pirotécnica, recebida com aplausos calorosos que se recuperavam do susto.
Não é preciso dizer que a mercadoria daquele homem foi um sucesso e que logo após já havia dezenas de pessoas – inclusive mercadores locais – a se estapear para comprar um exemplar para si.
O estoque, que não era extenso, não durou muito, e o homem partiu, sorrindo, sob uma chuva de aplausos e gritos entusiasmados (em especial daqueles que conseguiram adquirir o joguete).
Como era de se esperar, os globos vendidos logo desapareceram, mas perduraria para sempre, naquela cidadezinha, a lembrança daquele homem tão esquisito e do que ali havia começado.
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