Desafio da Última Linha

Acompanhe aqui as sugestões de cada um:

Desafio dos Neologismos - Encerrado
Desafio dos Títulos -Encerrado


sábado, 13 de dezembro de 2008

[Desafio] Me chama de chão

Me chama, me chama de novo (grita o meu nome), me pisa, me arranha (arranha a tua garganta), me berra, me brada, me urra, me morde, me dói, me machuca (grita o meu nome mais alto) (urra o meu nome).

Me sê, me entra, me dá, me recebe, me sai, me everte.

(Deixa eu ser teu, teu pertence, todo teu, teu todo, tua coisa, teu objeto quotidiano, tua coisa de cumprir tarefas).

Me usa, me usa, me usa, me faz, me compra.

Me rasga, me rabisca, me contorce, me distorce, me fode, me sua, me respira (entra), me constrói, me destrói, me constrói, me destrói, me desdiz, me desfaz.

Me arrasa, me amputa, me arranca, me afasta, me aposta, me atesta, me estaca, me esfaqueia, me atira, me olha, me pisca. (Rasga o meu nome enclítico).

Me sê, me está, me tem, me põe, me tira.

Me joga, me quebra, me ri, me gargalha, me chora, me pranteia, me prateia, me enterra, me cospe, me mija, me assa, me dorme.

Me olha (com desprezo), me vai, me vem, me escolhe, me traz, me leva, me escolhe, me traz, me leva, me vive.

Me pisa, me cala, me chama de chão.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

[ Desafio ] O Fim de Uma Era

Estou contando os dias para que tudo acabe, e sei que será um momento feliz. Se eu bebesse provavelmente estaria programando a bebedeira do século, porque esse ano já deu tudo que tinha que dar e mais um pouco, e eu estou cansada.
Mas é aí que entra a parte chata, e não me refiro a minha abstinência alcoólica. Quando janeiro chegar e eu fizer o que vai ser a última prova do ensino médio eu vou dar adeus a 12 anos da minha vida.
Por sete desses anos, eu tive a companhia de algumas pessoas que, pra mim, são as melhores do mundo. Três desses sete foram os melhores que eu poderia desejar, e digo isso pesando o bom e o ruim. E, em um dia, tudo vai acabar: eu não vou mais vestir a velha camisa branca, não vou ver as velhas pessoas, não vou passar pelos mesmos lugares.
O Adeus sempre pareceu complicado pra mim. Agora eu me vejo chorosa, sofrendo de saudosismo antecipado, querendo rir tudo que ainda não ri. Fico pensando no que vai acontecer daqui pra frente, se algo vai se salvar, lembrando de pequenos detalhes e coisas antigas que achei que tinha esquecido. Pensar no CAp é difícil. Odeio, sem dúvidas. Amo.
Foi lá que eu cresci, física e psicologicamente ( apesar de alguns afirmarem que ainda me comporto feito criança ), e se hoje eu sou o que sou, é culpa quase que exclusiva dele e de seus alunos. Vou fazer visitas nos dois primeiros anos, e depois vou parar, mas estarei no baile dos cem anos.
Vou chorar triste e feliz ao mesmo tempo. Vou levar uma vida, as melhores amizades (porque mesmo que acabem serão sempre as melhores), uma cabeça melhor, lembranças da melhor turma de terceiro ano. Vou levar fotos, nomes e histórias. Vou levar memórias e uma camisa pichada, dessa vez pra nunca mais lavar.

E vou guardar esse texto brega e cafona, que espero substituir por outro a altura de tudo que eu quero dizer.


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Proposta: Me chama de chão!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Caju.

Aula de Geografia: “Brasil vem aumentando as exportações de fruticultura, principalmente mangas, laranjas e cajus.”

Caju! Sinto meu vício reacender.

Intervalo.

Suco de caju.

Cantina. Carboidratos. Gorduras. Nocivo.

Nada saudável.

Desejo volta à caixinha do suco.

Coca-cola.

Sala.

Maldito consumo.



ps.: Mantenham os desafios durante as férias, pois pretendo respondê-los.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Aposentadoria

Venho aqui dizer-lhe o porquê de ter me aposentado assim, tão cedo. Não foi por invalidez, não foi por tempo de trabalho, não foi por idade. Aposentei-me, amigo, por excesso de humanidade.

Foi adolescente que inspirou-me a luz de tornar-me massagista. Entretanto, já em dois meses de trabalho, não havia controle emocional que suportasse meu infeliz fardo.

Talvez você, que lê, pense que se trata de uma profissão fácil, comparável, quiçá, à das prostitutas: pagas para proporcionar prazer para pessoas pesadas de tanto trabalhar. Meu dever era o de tirar o peso do mundo dos ombros dos outros.

Mas quem dera, meu caro, que fosse para sempre. Eu, ao mesmo tempo em que era anjo redentor do sofrimento alheio, era o carrasco que tinha o triste dever de retornar cada um a sua respectiva via-crucis.

Conseguia ser o criador e o destruidor das paisagens mais belas: campos de gramados verdejantes e jardins de tulipas vermelhas sob um céu azul e límpido tornavam-se novamente a selva de pedra em que cada um de nós existe.

Era a pura expressão viva do "tirar doce de criança". Para quê aliviar suas dores, se era obrigado a deixá-la no lugar onde a encontrara, como ela fosse um brinquedo com o qual brincamos, interagimos, modificamos e guardamos?

Se fui, amigo, um canal anestésico da angústia de alguém, prefiro que não tivesse feito, pois mais vale a dor que passam do que a nostalgia do que nunca poderia ter sido.

[ Desafio ] Os 11 Motivos do Jacaré

Jacaré um dia resolveu virar bolsa, dessas tipo favorita de madame que não saem de debaixo do braço. Comunicou a decisão aos amigos de espécie que prontamente lhe perguntaram os motivos. Como explicar demorasse muito tempo escreveu tudo numa lista e entregou aos companheiros, que lhe bombardearam de perguntas.
É fato que o jacaré tava se sentindo só e tinha achado na madame uma companhia mais que agradável. Os outros balançaram o rabo em negação dizendo que aquilo era motivo bem do fajuto e que tinha muita da fêmea por ali. “ Mas eu já to cansado dessas jacaré fêmeas, desculpe as amigas que me escutam, que tão com dois em cada hora e dia seguinte fingem que nem conhece quando vê passar na lagoa”. Concordaram todos que podia bem ser verdade, mas que uma decisão extremista daquelas não era necessária, que bem que ele podia se arrepender depois. Jacaré então calou todo mundo dizendo que não era nada definitivo não e , sendo o caso, era só pedir seu couro de volta e retornar pra sua caverninha lá perto da lagoa mesmo.
Prosseguiu a discussão com mais meia dúzia de motivos que a censura e o horário não me permitem dizer, mas que fez as fêmeas ouvindo revirarem os olhos “ jacarés, humpf!” (porque Jacaré não queria mais saber dos relacionamentos de jacarés, mas foi de forma bem jacaroística que essa história de ser bolsa começou.). E como os amigos continuassem a bater pata dizendo que não ‘tavam convencidos e que aquilo tava era muito mal contado, Jacaré abriu a boca e soltou o motivo final e secreto. ‘Tava era apaixonado e por demais e nada fazia ele mudar de idéia.
Passadas as horas e a despedida, a madame chegou pra buscar sua futura bolsa pra ter o couro arrancado fora, e o futuro acessório foi tão feliz e tão risonho que os de sua espécie acreditaram piamente no argumento número 10, de que Jacaré acreditava mesmo que aquilo era o que ele queria e que o deixaria muito do feliz.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

[Desafio] Os 11 motivos do Jacaré

Jacaré morava na lagoa do Tuiuiú e resolveu se mudar. Fez a burrice de contar pro papagaio, que tornou o fato comentadíssimo no reino do Seu Leão.

Como assim? Depois de tanto tempo? Que absurdo! Ninguém sai daqui! Vai nos abandonar!

Uma fuzarca geral, um auê, afinal se tratava de parte da milícia da floresta! Humano prudente não entrava na água não, só por causa de Jacaré.

Para piorar a situação, ninguém encontrava o raio do Jacaré em lugar nenhum. Perguntavam pra quase toda a fauna e nada de resposta.

E quede Jacaré? Tava em casa, arrumando as malinhas feitas todas de couro de gente, enchendo de casacos de pele, cabelo, barba, bigode e até pentelho (que horror!) tinha nas roupas.

Até que a coruja, muito da esperta, resolveu questionar o papagaio, até que se achou o Jacaré.

- Ora, que te levou a querer sair de nossa agradável companhia, seu Jacaré?
- Ih, dona coruja, as razões são muitas, mas já te digo que a agradável companhia não existe, não. Esses bichos não param quietos! Meu modo de vida não agüenta essa bagunça não.
- Mas não é só isso, é?
- Ah, dona coruja, vou te contar um segredo: ando co’as costas destruídas de tanto nadar assim.
Vou pro Nilo, pro Sena, pro Tietê, até pra Lagoa Rodrigo de Freitas eu vou, porque essas piranhas me matam!

E partiu, sem ouvir resposta e sem deixar de mandar uma banana pro macaco – ai que ódio desse mico barulhento!

O tempo passou e nem notícias do seu Jacaré, e todos (até mesmo o mico) sentiam falta do danado, até que um dia, voltando de uma temporada de férias, papagaio matreiro e fofoqueiro tratou logo de espalhar a tragédia: Jacaré tinha virado bolsa de uma tal de Madame Sofia, dona de um bordel chiquésimo em São Paulo.
O comentário foi recebido com um pio de suspiro da coruja, que virou pra papagaio e disse:


-Eu bem que ia avisar: piranha tem é em todo lugar.


Próximo título: A máquina do mundo

[Desafio] O belíssimo dia em que o sol se levantou mas a manhã não nasceu

Eu venho tentando buscar uma razão para tudo. Ando racional demais, nesses últimos dias. Preciso de uma raiz que me finque no sólido, oposta ao etéreo do meu mundo das idéias. “Árvore não voa”, ouvi há pouco tempo, numa conversa qualquer sobre exames psicotécnicos e a falta de uma linha simbolizando o chão nos desenhos representativos de árvore. Eu ando um pouco árvore sem linha de chão, por assim dizer.

Árvore que voa não dá fruto, porque não se alimenta de matéria. Não cresce. Isso talvez explique a minha súbita e irremediável falta de criatividade. Onde já se viu escrever sem linha? Deus escreve certo por linhas tortas e eu, escrevo por linhas, quaisquer que sejam.


E a minha razão precisa responder a vários porquês. Minha árvore sem chão se alimenta de porquês. Eu tenho me alimentado de porquês e de toda sorte de besteiras, das que fazem mal a longo-prazo.


Ontem terminei aquele livro de que te falei. Terminei e joguei longe – não porque desgostei, pelo contrário – joguei longe porque também estava me deixando mal. Eu tenho sido masoquista nesse ponto: me agrada aquilo que me faz mal, de livros a porquês.


Meus porquês são minha nutrição e meu veneno.


Hoje o sol levantou, mas a manhã não nasceu, não para mim. Estava quente, eu sentia, mas eu me mantive de janelas fechadas e blecaute, no meu universo, pra evitar a claridade. Passei o dia à maquina de escrever, procurando o que te digitar. Se te digito, faço-o sem linhas. Se te escrevo, busco as minhas linhas.

Eis o meu problema: Ando sem linha de chão, sem linha de escrita e, portanto, digito.


A verdade, entretanto, é que não há problema. Por que? Porque não há. Eis tudo.


O meu universo não tem chão e nunca teve, mas hoje eu percebo que eu preciso dele, às vezes. Não que isso seja um problema. Eu já te disse: não há problema.


Não enquanto eu não estiver no chão e começar a andar na linha.