Dia outro vi poesia no auto-queimar de um cigarro,
Mas decidi que não era poético.
Decidi que suas cinzas são inútil mal,
E que sua fumaça polui meus pensamentos
E meus desejos.
Entendi, também,
Porque eu entendo as coisas muito facilmente, diga-se de passagem,
Que os cigarros são objetos fascinantes.
Mesmo.
Não como um ensejo interrompido e enferrujado.
Mas não tive vontade de fazer poesia -- poesia é para os fracos, disse eu, o poeta,
Resolvi fazer prosa,
Mas,
Terminando as linhas aleatoriamente,
E dando aos meus parágrafos a configuração morfológica de estanzas líricas.
Mas não é poesia.
Sabe o que é poesia?
Um cigarro:
Sempre belo e chama e aborto.
Sempre magro e branco e morto.
Sempre vivo e crebro e crasso.
Sempre traço e maço e inchaço.
Sempre ego e álcool e noite.
Sempre taful e alto e açoite.
Sempre moço e claro e gosto.
Sempre filho e amigo e rosto.
Sempre, sempre, sempre e sempre.
Mas eu não fumo e,
Pela última vez,
Não,
Eu não tenho fogo.
Desafio da Última Linha
Acompanhe aqui as sugestões de cada um:
Desafio dos Títulos -Encerrado
quarta-feira, 15 de abril de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
O Nosso Apocalipse
E você ali, deitado, entorpecido, o céu alaranjado com a aquarela destruidora. “Acorda”, eu pensava, eu queria. O nosso último contato carnal, era ali agora. Nós éramos toda a humanidade, cada um no planeta era a sua última e única humanidade – ensandecidos pela promessa fatalista, eram tomados; marionetes de tanatos e de eros. Num berro infeliz de bravura e luxúria, eu berro o seu nome, mas você não acorda, respira umas palavras, sem dor. Eu olho pela janela e vejo o laranja se avermelhar, numa funesta previsão cromática, era eu, à janela, pedindo aos céus que o mundo não acabasse, pedindo a quem fosse.
E quando você finalmente desperta: impacto, calor e morte. Nasce-se só e morre-se só; nasce-se pó e morre-se pó. Antagônicos e sinônimos, derradeiros e primevos... E no mesmo desespero calmo, apocalíptico e turvo, eu também acordo. Que calor.
E quando você finalmente desperta: impacto, calor e morte. Nasce-se só e morre-se só; nasce-se pó e morre-se pó. Antagônicos e sinônimos, derradeiros e primevos... E no mesmo desespero calmo, apocalíptico e turvo, eu também acordo. Que calor.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Uma Fábula de Esopo Sideral
Vi um programa no National Geographic Channel sobre a ameaça dos asteróides à Terra. Nele, deram aos espectadores uma breve explicação sobre os corpos celestes (alguns chegam a ser do tamanho do estado norte-americano de Nova Iorque) e discutiram nossas opções para evitarmos que o planeta seja atingido por um. Dentre as estratégias propostas, destacam-se a deflexão, o desvio de rota e a destruição total. O documentário fez menção também aos três tipos diferentes de asteróides: uns são monólitos colossais, outros vagam pelo sistema solar em sistemas binários e há grupos de pequenas rochas espaciais que viajam ligadas pela atração gravitacional, os rumble piles. No momento em que se analisava a possibilidade do uso do arsenal nuclear americano para reduzi-los a pedaços, chegou-se à surpreendente conclusão de serem os rumble piles os mais perigosos, apesar de serem os de menor força de impacto.
Um cientista provou-o fazendo uma experiência simples. Sacou uma espingarda e armou a mais ou menos quinze metros de si um altar sobre o qual pôs, separados por aproximadamente dois metros, os três tipos de asteróides de faz-de-conta. Atirou, primeiro, na pedra solitária, em seguida, no par e, por último, numa pilha de pequenos seixos. Como me dizia o bom-senso desde o começo do experimento, a primeira pedra virou pó, o sistema binário perdeu a maior parte de sua massa, mas restaram alguns pedaços de tamanho considerável e o rumble pile permaneceu quase intacto, com a exceção de as pedras terem sido sutilmente afastadas umas das outras.
Moral da história: o resultado de uma tentativa de explodir um rumble pile com uma bomba atômica seria uma chuva de meteoros radioativos.
Um cientista provou-o fazendo uma experiência simples. Sacou uma espingarda e armou a mais ou menos quinze metros de si um altar sobre o qual pôs, separados por aproximadamente dois metros, os três tipos de asteróides de faz-de-conta. Atirou, primeiro, na pedra solitária, em seguida, no par e, por último, numa pilha de pequenos seixos. Como me dizia o bom-senso desde o começo do experimento, a primeira pedra virou pó, o sistema binário perdeu a maior parte de sua massa, mas restaram alguns pedaços de tamanho considerável e o rumble pile permaneceu quase intacto, com a exceção de as pedras terem sido sutilmente afastadas umas das outras.
Moral da história: o resultado de uma tentativa de explodir um rumble pile com uma bomba atômica seria uma chuva de meteoros radioativos.
Segunda Pessoa
Você estava desaparecido, ninguém sabia o seu paradeiro. Claro, só você sabia. Era um beco cinzento que cheirava a lixo e mofo. Você tinha apanhado e pensava em mim. Tinha um hematoma muito feio no abdômen e um corte horrível no lombar. Eles haviam te chutado, socado, pisado. Mas você não sabia o que eles queriam.
Agora você estava numa sala de estar, inerte sobre um sofá, o ventilador soprando uma brisa artificial sobre seu corpo nu. Você sonhava, sonhava comigo, comigo. Você respirava suavemente, seu tórax para cima e para baixo num pulso fácil.
Então você estava num parque sentado sobre uma toalha vermelha xadrez, olhando o céu pensando que ia chover e em mim, pensando em mim, era de manhã. Era um piquenique solitário de primavera.
E era inverno e você estava se agasalhando no quarto, mas nenhum casaco combinava com as calças, as únicas limpas que você tinha, e você pensou naquele casaco que eu tinha, aquele cor de burro quando foge.
Você estava no computador, os olhos vidrados na tela, esperando eu entrar, me esperando, mas eu não venho hoje, eu não venho, eu vou te torturar, um pouquinho mais vou te torturar. Você se desespera, mas eu não apareço. Quando eu sinto remorso e entro, você já está dormindo...
Você está dormindo, sonhando comigo, está comigo sonhando... É um pesadelo, eu digo que te amo, você também, mas é mentira e você acorda e acordar dói.
Acordar dói.
Agora você estava numa sala de estar, inerte sobre um sofá, o ventilador soprando uma brisa artificial sobre seu corpo nu. Você sonhava, sonhava comigo, comigo. Você respirava suavemente, seu tórax para cima e para baixo num pulso fácil.
Então você estava num parque sentado sobre uma toalha vermelha xadrez, olhando o céu pensando que ia chover e em mim, pensando em mim, era de manhã. Era um piquenique solitário de primavera.
E era inverno e você estava se agasalhando no quarto, mas nenhum casaco combinava com as calças, as únicas limpas que você tinha, e você pensou naquele casaco que eu tinha, aquele cor de burro quando foge.
Você estava no computador, os olhos vidrados na tela, esperando eu entrar, me esperando, mas eu não venho hoje, eu não venho, eu vou te torturar, um pouquinho mais vou te torturar. Você se desespera, mas eu não apareço. Quando eu sinto remorso e entro, você já está dormindo...
Você está dormindo, sonhando comigo, está comigo sonhando... É um pesadelo, eu digo que te amo, você também, mas é mentira e você acorda e acordar dói.
Acordar dói.
Meu amigo escritor
Tenho um amigo escreve muito bem. Ele escreve sobre o que gostaria que acontecesse, sobre as coisas com que sonha. Mas nada do que ele escreve é verdade. Nada se realiza. São belas, mas são mentirosas, suas palavras.
O que ele escreve, o que sai de seus dedos, é o que engasga em sua garganta. Ele não escreve sobre o que fala, nem fala sobre o que escreve.
Suas palavras são como sonhos, elas não existem. Meu amigo acha perda de tempo escrever sobre as coisas que acontecem na vida se pode escrever sobre as que não acontecem... escrever sobre a realidade é confortar-se com a ineficácia dos sonhos.
Breves, pois, são suas palavras, pois pôr-se a divagar sobre sonhos é sonhar tudo de novo... e isso é tortura, meus amigos.
O que ele escreve, o que sai de seus dedos, é o que engasga em sua garganta. Ele não escreve sobre o que fala, nem fala sobre o que escreve.
Suas palavras são como sonhos, elas não existem. Meu amigo acha perda de tempo escrever sobre as coisas que acontecem na vida se pode escrever sobre as que não acontecem... escrever sobre a realidade é confortar-se com a ineficácia dos sonhos.
Breves, pois, são suas palavras, pois pôr-se a divagar sobre sonhos é sonhar tudo de novo... e isso é tortura, meus amigos.
Despertar
Você acorda, suado. Gente espantada gritando te cerca, e você ali, metido naquele lugar branco, aquelas luzes inorgânicas contra você, tudo meio contra você; e aquela gente frenética se agitando, se agitando, gritando. Você abre os olhos de verdade e vê, e se revolta – num instante, você acaba e recomeça, e você retorna ao seu estado primordial de existência, você se torna uma consciência dormente dentro de um corpo deslocado e machucado, e numa reviravolta inesperada, sono. Agora você acorda de novo, não há ninguém nos arredores. Entra uma luz piedosa pela porta, uma luz amarela e cansada, e você também está cansado. Você tenta se sentir, você tenta se entender, mas há uns tubos, uns aparatos... e quando você se mexe uma dor aguda desperta e berra, uma dor que sai da camada menos externa da pele e perfura sua carne e chega até o âmago do seu ser físico. Você está mole, você está quase sem movimento – e numa agonia desamparada você dá um suspiro, aparentemente baixo, mas inegavelmente audível – as pessoas voltaram. Mais espanto, mas agora, uma calma estranha segue o frenesi, e uma pessoa embaçada cai de joelhos e se desfaz em soluços. Os seus olhos gradativamente captam coisas, coisas inidentificáveis, coisas indecifráveis, hieroglíficas, absurdas! Você está estirado sobre um leito enquanto estranhos ao seu redor falam uma língua ininteligível, numa espécie de caos organizado no qual você é o foco. Memórias, você as tem, e pouco a pouco as recupera. Você é um missionário, você tomou a força o corpo de um homem, um homem, aquilo que você não é, você é uma outra coisa, uma outra entidade, algo outro, algo que não se compara. Mas você está preso a este corpo. Com o tempo, você se lembraria da missão. Até lá.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
[Desafio] Cancelado devido a chuva
Eis que, então, o dia era chegado. A plateia encontrava-se afoita e apreensiva. Não era todo dia que, por aquelas bandas da bela cidade praiana, erguia-se tão primoroso castelo. E lá estava ele, imponente, como que a olhar para todos, que, de tão encantados com a obra, chegavam a ter borboletas no estômago, um frio na barriga dos de felicidade contida, pronta pra escapar num sorriso, numa risada, num enleio qualquer, especialmente naquele que construira aquilo tudo. Havia no mundo coisa mais bela que esse tal castelo, perguntavam-se os espectadores, prontos para o momento do corte da fita, o momento da inauguração, que abalaria a cidadela e traria um belo motivo para sorrir àqueles que ali admiravam a obra.
E a plateia era somente o Tempo e o construtor, que muito pouco se importava se as pessoas não reparassem em seu magnífico prédio, mas achava estranho que ninguém visse algo de tal magnitude, mesmo que não fosse o maior dos castelos. Era, achava, apenas questão de tempo para alguém notá-lo (dados o empenho e a velocidade com que tinha construído) e correr o burburinho cidadela afora. Porém, no local da inauguração, não havia ninguém que não ele, talvez por medo do tempo, que já não sorria como no momento da construção do castelo.
E o castelo era feito de areia, com formato de balde virado, uma bandeirola improvisada e com não mais que vinte e cinco centímetros, tendo lugar na praia. Pobre, mas bonito. Repare na forma com que a areia fica coesa e em harmonia com o adorno! Há no mundo coisa mais romântica ou barroca ou pré-moderna?
Alheio ao engenho e à arte do rapaz, o Tempo fechou-lhe a cara e resolveu parar de esperar a inauguração e cancelá-la, descendo chuva torrencial de verão e desconstruindo aquilo que o rapaz fizera. Eis que, então, o corte das fitas era cancelado.
É inveja. Inveja!
E a plateia era somente o Tempo e o construtor, que muito pouco se importava se as pessoas não reparassem em seu magnífico prédio, mas achava estranho que ninguém visse algo de tal magnitude, mesmo que não fosse o maior dos castelos. Era, achava, apenas questão de tempo para alguém notá-lo (dados o empenho e a velocidade com que tinha construído) e correr o burburinho cidadela afora. Porém, no local da inauguração, não havia ninguém que não ele, talvez por medo do tempo, que já não sorria como no momento da construção do castelo.
E o castelo era feito de areia, com formato de balde virado, uma bandeirola improvisada e com não mais que vinte e cinco centímetros, tendo lugar na praia. Pobre, mas bonito. Repare na forma com que a areia fica coesa e em harmonia com o adorno! Há no mundo coisa mais romântica ou barroca ou pré-moderna?
Alheio ao engenho e à arte do rapaz, o Tempo fechou-lhe a cara e resolveu parar de esperar a inauguração e cancelá-la, descendo chuva torrencial de verão e desconstruindo aquilo que o rapaz fizera. Eis que, então, o corte das fitas era cancelado.
É inveja. Inveja!
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