Cheguei, filha da puta!
Você achou que nunca mais fosse me ver,
Mas com teu carma, só muita luta
Pra não ficar agora à minha mercê.
Cadê as crianças?
Na casa de um amigo, que o caralho!
Cadê as crianças?
Você esqueceu elas no trabalho?
Quantas mudanças,
Até arranjou emprego,
Agora pega a merda do carro e vai buscar
Antes que eu precise o teu pinto chamuscar
Com meu cigarro, só aí 'cê pede arrego.
Assim que elas chegarem,
Vou fazer umas perguntas,
E se elas não falarem,
Corto a língua sua e dela, as duas juntas.
Falar nisso, velho amor,
Onde está ela?
Sabia que eu viria e já pressentiu a dor?
Ou se ocupa simplesmente de limpar uma panela?
Enquanto isso, me sento, e peço água.
Não me traga quente, nem gelada,
A temperatura certa abranda minha mágoa,
Só traga as crianças, e não me esconda nada.
Desafio da Última Linha
Acompanhe aqui as sugestões de cada um:
Desafio dos Títulos -Encerrado
sábado, 1 de maio de 2010
quarta-feira, 31 de março de 2010
Rasgos
Quando te vi luziu-me uma centelha.
Perdi o rumo, o chão: perdi a fala.
Fiz-me cortês e, então, p'ra conquistá-la
Rasguei uns versos com tinta vermelha
Mas foi em vão tal poesia torta
Porque não te iludiam os pronomes
Para que me notasses, nossos nomes
Rasguei na casca duma árvore morta
E vendo qu'inda tinha fracassado,
Tentei um método desesperado:
Rasguei a pele em tatuagem rasa!
E ao perceber que não serias minha
Te amei da forma como me convinha:
Rasguei-te o peito e te pus toda em brasa!
Perdi o rumo, o chão: perdi a fala.
Fiz-me cortês e, então, p'ra conquistá-la
Rasguei uns versos com tinta vermelha
Mas foi em vão tal poesia torta
Porque não te iludiam os pronomes
Para que me notasses, nossos nomes
Rasguei na casca duma árvore morta
E vendo qu'inda tinha fracassado,
Tentei um método desesperado:
Rasguei a pele em tatuagem rasa!
E ao perceber que não serias minha
Te amei da forma como me convinha:
Rasguei-te o peito e te pus toda em brasa!
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
O píer
Essa faixa estreita
de madeira e de sonho
avança assim
sem obstáculos
lançando-se sem rodeios
ao encontro do mar
Dado um momento porém
pára talvez encantada
com a imensidão
E melhor do que vê-lo
o píer assim
de bem com esse mar
é caminhar sobre ele porque
à medida em que se anda
se esquecem os achaques
e as angústias da terra
para estar em contato
apenas com as águas
e com o que de bom trazem as águas
Nele avançamos e ao seu fim
nada mais nos resta que não
o infinito
de madeira e de sonho
avança assim
sem obstáculos
lançando-se sem rodeios
ao encontro do mar
Dado um momento porém
pára talvez encantada
com a imensidão
E melhor do que vê-lo
o píer assim
de bem com esse mar
é caminhar sobre ele porque
à medida em que se anda
se esquecem os achaques
e as angústias da terra
para estar em contato
apenas com as águas
e com o que de bom trazem as águas
Nele avançamos e ao seu fim
nada mais nos resta que não
o infinito
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
[Desafio] Lama
De que me vale todo esse castelo que não construi, se não sou íntegra? Ando cansada, embora mal use minhas pernas para caminhar sozinha: sempre tive uma legião para atender a todas as necessidades que tinha e destinha.
Não estou nua, mas rasguei meu vestido, aquele que não sei quem coseu.
Tampouco estou bêbada. Acho que nunca estive de mais sóbria em todo o sempre, se é que o tempo existiu antes de eu nascer e, agora, nascer.
Agora eu quero o mar inteiro, sem vidro. Quero voar, sem madeira ou metal. Quero sair da linha, eu bonde, conduzida.
Agora eu quero afundar completamente na terra, sentir o gosto do chão, do podre, da carne em putrefação até vomitar - essa minha expressão que, descubro, é a mais sincera e secreta. Quero misturar-me aos porcos, aos pombos, aos ratos, às mais vis bactérias, eu que sempre fui mais rota que o asco por si.
Quero morder a carne, ainda que a minha , sentir o gosto da substância, aquilo que move o mundo e que por tanto tempo me foi negado.
Quero deitar nos campos e me deixar levar pelo cheiro das dardípias, vivas ou mortas, sob a chuva ou não, porque o meu desejo é de ser, é viver o momento, o instante-já, o não importa.
Quero chegar ao mais fundo o possível, para que eu possa enfim entrar em equilíbrio com o universo, o cosmo, o inferno que for. Entrar em equilíbrio comigo mesma, embora não seja a paz garantida.
É a partir de então que eu conseguirei o que quero, embora ainda não saiba o que quero de fato. Acho que quero o fato, a Verdade absoluta: eu. Eu sou ou não sou um fato?
Eu sou, aqui.
Eu sei.
Próxima palavra: Taruela
Não estou nua, mas rasguei meu vestido, aquele que não sei quem coseu.
Tampouco estou bêbada. Acho que nunca estive de mais sóbria em todo o sempre, se é que o tempo existiu antes de eu nascer e, agora, nascer.
Agora eu quero o mar inteiro, sem vidro. Quero voar, sem madeira ou metal. Quero sair da linha, eu bonde, conduzida.
Agora eu quero afundar completamente na terra, sentir o gosto do chão, do podre, da carne em putrefação até vomitar - essa minha expressão que, descubro, é a mais sincera e secreta. Quero misturar-me aos porcos, aos pombos, aos ratos, às mais vis bactérias, eu que sempre fui mais rota que o asco por si.
Quero morder a carne, ainda que a minha , sentir o gosto da substância, aquilo que move o mundo e que por tanto tempo me foi negado.
Quero deitar nos campos e me deixar levar pelo cheiro das dardípias, vivas ou mortas, sob a chuva ou não, porque o meu desejo é de ser, é viver o momento, o instante-já, o não importa.
Quero chegar ao mais fundo o possível, para que eu possa enfim entrar em equilíbrio com o universo, o cosmo, o inferno que for. Entrar em equilíbrio comigo mesma, embora não seja a paz garantida.
É a partir de então que eu conseguirei o que quero, embora ainda não saiba o que quero de fato. Acho que quero o fato, a Verdade absoluta: eu. Eu sou ou não sou um fato?
Eu sou, aqui.
Eu sei.
Próxima palavra: Taruela
sábado, 19 de dezembro de 2009
Amélia
Tô cansada de viver
com esse estrupício
Chego em casa sempre tarde,
faço sacrifício.
E ele só no bem-bom
Rei do desperdício.
Vou te dizer, meu amigo:
Viver é difícil.
Vou me emputecer de vez
vou morar no hospício.
Melhor que nesse barraco
Que nesse edifício.
Vou explodir essa merda
Vou jogar um míssil.
Esse grande vagabundo
Só traz malefício!
Ele tá enorme, moço:
Não faz exercício.
Um dia vou me jogar
De um precipício
Pra mostrar pr'esse maldito
Pra esse patrício
Que meu esforço foi fato,
não foi fictício.
Pausa e respiração
Pensando melhor, de amor
Existe um resquício.
Entre a raiva e o ódio,
há um interstício!
Ele me faz mal, mas gosto:
acho que é meu vício.
Ele é ruim, mas é meu,
e é vitalício!
Por ele, acho que aguento
Todo esse suplício
Ele é gordo, mas gostoso.
(É alimentício!)
Suportá-lo, enfim, parece
ser o meu ofício
Mas se me desrespeitar
Eu volto pro início!
com esse estrupício
Chego em casa sempre tarde,
faço sacrifício.
E ele só no bem-bom
Rei do desperdício.
Vou te dizer, meu amigo:
Viver é difícil.
Vou me emputecer de vez
vou morar no hospício.
Melhor que nesse barraco
Que nesse edifício.
Vou explodir essa merda
Vou jogar um míssil.
Esse grande vagabundo
Só traz malefício!
Ele tá enorme, moço:
Não faz exercício.
Um dia vou me jogar
De um precipício
Pra mostrar pr'esse maldito
Pra esse patrício
Que meu esforço foi fato,
não foi fictício.
Pausa e respiração
Pensando melhor, de amor
Existe um resquício.
Entre a raiva e o ódio,
há um interstício!
Ele me faz mal, mas gosto:
acho que é meu vício.
Ele é ruim, mas é meu,
e é vitalício!
Por ele, acho que aguento
Todo esse suplício
Ele é gordo, mas gostoso.
(É alimentício!)
Suportá-lo, enfim, parece
ser o meu ofício
Mas se me desrespeitar
Eu volto pro início!
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Inominável
Chovia e estava um pouco escuro, mas tudo se iluminava quando relampejava. Ele andava um pouco trôpego, mas confiante, mesmo que não soubesse muito bem aonde estava indo.
Parou.
Que fazer? Não sei e já nem quero saber.
Embora perdido, felicitava-se:
Estava livre, mesmo não sabendo muito bem o que fazer com isso.
De princípio estranhou, porque estar, assim, solto, era novo demais. Era reconfortante, apesar de impossível de se nomear efetivamente. Sentiu-se acarinhado, pôs-se a caminhar novamente.
Não havia ninguém por perto, para testemunhar o que se seguiria.
Do nada, veio o tiro, que tirou completamente a liberdade do rapaz e deixou a boca, antes com o gosto do inominável, com gosto de sangue, real e concreto.
Ele voltara ao concreto do chão.
Parou.
Que fazer? Não sei e já nem quero saber.
Embora perdido, felicitava-se:
Estava livre, mesmo não sabendo muito bem o que fazer com isso.
De princípio estranhou, porque estar, assim, solto, era novo demais. Era reconfortante, apesar de impossível de se nomear efetivamente. Sentiu-se acarinhado, pôs-se a caminhar novamente.
Não havia ninguém por perto, para testemunhar o que se seguiria.
Do nada, veio o tiro, que tirou completamente a liberdade do rapaz e deixou a boca, antes com o gosto do inominável, com gosto de sangue, real e concreto.
Ele voltara ao concreto do chão.
sábado, 3 de outubro de 2009
Os pequenos espectros
Ao contrário do que se vê na crença popular, os pequenos espectros caminham a qualquer hora, podendo inclusive aparecer à luz do dia, andando trôpegos e lentos, como sempre fizeram.
Estão perdidos, mas andam certos, mesmo que para lugar nenhum, já que não têm lugar.
Embora não se deem conta de que o fazem, existem por aí, com a intenção magna de um ser: procurar a existência plena.
A subsistência.
Eis a razão de ser deles, que mal têm o que vestir. Andam sujos e surrados, preocupados apenas com o agora, o instante-já, porque o futuro a Deus pertence – e Ele há muito tempo se esqueceu desses seus filhos sem alma.
Um dia, quem sabe, encontrarão a luz e voltarão aos braços do Pai eterno.
Enquanto não o fazem, continuam aos pés do pai terreno, que os dá um luzir de alegria dentro da caverna de suas vidas, onde a esperança e o futuro já desistiram de chegar.
Estão perdidos, mas andam certos, mesmo que para lugar nenhum, já que não têm lugar.
Embora não se deem conta de que o fazem, existem por aí, com a intenção magna de um ser: procurar a existência plena.
A subsistência.
Eis a razão de ser deles, que mal têm o que vestir. Andam sujos e surrados, preocupados apenas com o agora, o instante-já, porque o futuro a Deus pertence – e Ele há muito tempo se esqueceu desses seus filhos sem alma.
Um dia, quem sabe, encontrarão a luz e voltarão aos braços do Pai eterno.
Enquanto não o fazem, continuam aos pés do pai terreno, que os dá um luzir de alegria dentro da caverna de suas vidas, onde a esperança e o futuro já desistiram de chegar.
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