“A minha vida, eu preciso mudar, todo o dia, para escapar da rotina dos meus desejos por seus beijos”
(Nasi)
Lúcia gabava-se de uma qualidade sua que punha atrás de nuvens todas as outras: seu equilíbrio. Tratava-se uma moça bastante centrada, categórica e sistemática. Um exemplo de pessoa para o desenvolvimento do capital, podia-se dizer, posto que sua rotina era de causar inveja mesmo aos mais metódicos idosos da região.
Era de acordar sempre às seis da manhã, sem o auxílio de qualquer aparato sonoro. Confiava seu despertar puramente a seu relógio biológico, que até então nunca havia falhado e, supunha-se, nunca falharia. Acordava, preparava o café da mesma marca de sempre comprado no mesmo mercadinho de sempre. É importante ressaltar, entretanto, que ela nunca admitira ser o café o elemento crucial para a manutenção do seu bem estar e dos seus olhos abertos durante o dia. Para ela, o grão nada mais era que um simples abridor de apetites, um pequeno luxo meio-amargo para comemorar a vitória de ter tido mais um dia e uma noite bem-sucedidos. Lúcia era muito bem-agradecida pelo simples fato de estar viva, fato admirável e exemplar que não se podia negar.
De café tomado, punha-se a caminhar – incrivelmente sempre com a mesma velocidade – para a banca de jornal, na qual comprava o mesmo jornal. Era realmente uma pena que as notícias não eram as mesmas de sempre. Que injustiça o mundo mudar!
E enquanto o mundo girava em torno de si mesmo, ela caminhava em círculos na estrada da vida.
Ao retornar, lia uma ou duas páginas (sempre essa mesma quantidade) e, insatisfeita com as notícias locais, vestia o mesmo terninho, apanhava sua bicicleta e pedalava seu caminho para o trabalho.
Lá, passava boa parte do dia a carimbar papéis, os quais, infelizmente, não eram do mesmo conteúdo do dia anterior. Quão amável era ver o trabalho mecânico de Lúcia, umedecendo seu carimbo estimado na tinta e, como quem descarrega toda a raiva, premendo-o contra os papéis que lhe eram destinados, com a incumbência de que fossem devidamente marcados.
De volta ao lar, tirava seus sapatos – adquiridos desde que seus pés, gloriosos pés, cessaram de crescer – e os engraxava com todo o esmero possível, como a cuidar de uma jóia rara. De fato, faz-se necessário admitir que, no pequeno mundinho de lucidez e equilíbrio da moça, os sapatos eram cruciais para a manutenção da sua rotina. Quem mais levaria pés tão gloriosos para a labuta diária, protegendo-os dos eventuais percalços do caminho? Nada havia de melhor no mundo que seus sapatos, exceto, talvez, o café, aquele prêmio merecido por mais um estágio galgado na dificuldade que era a vida.
Mesmo que o cenário fosse sempre o mesmo, os personagens do jogo da vida eram constantemente trocados – eis mais uma injustiça do mundo, que insistia em girar e armar uma grande conspiração contra a moça – e isso bastava para que a dificuldade desse jogo aumentasse. Um dia, por exemplo, teve de desviar de um transeunte desavisado da importância do mesmo caminho percorrido pela bicicleta de Lúcia. Quem, no mundo, Deus, haveria de atrapalhá-la no percurso sacro de todo dia? Devia ser uma conspiração internacional, organizada especificamente para atrapalhá-la e, portanto, ela merecia um prêmio por sobreviver a tais mudanças bruscas nos seus hábitos. E ei-lo: o café preparado às sete e quinze da manhã de todo o dia.
Relaxada em casa, punha-se a cozinhar o mesmo cardápio nutritivo, este cuidadosamente calculado em função da perda de nutrientes sofrida pelo organismo no dia-a-dia.
Satisfeita, tomava um banho não muito demorado – cujo tempo de duração era de exatos oito minutos, medidos cautelosamente pelo seu relógio biológico, o mesmo infalível que nunca a deixava de acordar – e atirava-se na cama.
Tudo por ela feito o era em incondicional desencadeamento de fatos, sem que houvesse tempo para questionamentos acerca da mediocridade de sua vida.
Porém, num fatídico dia, a perfeita ordem do mundo de Lúcia foi abalada.
Em meio a uma pequena crise financeira (que ocorrera pela incapacidade de Lucia de pegar uma quantia diferente de dinheiro, malgrado a inflação ou reajustes de preços quaisquer), Lucia pedalava pela calçada de uma rua de poucos passantes quando, de súbito, avistou uma nota reluzente de cinqüenta reais no chão, como que sorrindo para ela.
Começava, então, o inferno da dúvida de Lúcia Cecília.
Dividida entre pegar o capital e deixá-lo lá, ela cometeu o primeiro e último grande erro de sua vida: parar de pedalar. Olhou para os lados, para cima, para a cédula, para todos os cantos: ninguém passava no momento.
Mas qualquer mudança no seu padrão econômico implicava numa mudança na perfeição de sua rotina, que por sua vez, implicava na morte.
Venceu, como sempre (e isso já não é hábito descontrolado apenas de Lúcia), seu lado capitalista-burguês. Cega pela avidez de apanhar o capital, a jovem não notou que um carro vinha em sua direção e, concomitantemente à colocação do dinheiro no bolso, houve um choque.
Acabava-se, pois, a glória da vida mediana de Lúcia.
Pobre moça.
Desafio da Última Linha
Acompanhe aqui as sugestões de cada um:
Desafio dos Títulos -Encerrado
sexta-feira, 18 de julho de 2008
A mediana
domingo, 22 de junho de 2008
nada de título
A história exige o pretérito. Às vezes, o imperfeito é perfeito, mas o perfeito também tem lá suas ocasiões.
Queria eu é viver uma história que carecesse o futuro, o presente...
Quero viver no infinitivo!
Queria eu é viver uma história que carecesse o futuro, o presente...
Quero viver no infinitivo!
sábado, 10 de maio de 2008
nada de título
Por que essas pessoas são todas como formigas... Não vêem o que fazem, apenas sabem que não têm opção a não ser fazer o que sabem dever fazer! Sempre as mesmas tarefas, as mesmas tarefas, as mesmas tarefas, as mesmas tarefas, as mesmas tarefas. Tudo tão macacânico, tão behaviorista, tão condicionante, tão esdrúxulo. Tudo em torno de duas malditas provas!
Provas!
Que a p(r)iori deveriam ser instrumentos de avaliação, hoje são desafios... barreiras... "processos seletivos"... Que país babaca, que vida babaca... Quanta babaquice.
E ai de quem pára e pensa no assunto! Refletir é perda de tempo, pois poder-se-ia estar estudando!
Às vezes, me sinto como uma cigarra.
Ou um cigarro.
Provas!
Que a p(r)iori deveriam ser instrumentos de avaliação, hoje são desafios... barreiras... "processos seletivos"... Que país babaca, que vida babaca... Quanta babaquice.
E ai de quem pára e pensa no assunto! Refletir é perda de tempo, pois poder-se-ia estar estudando!
Às vezes, me sinto como uma cigarra.
Ou um cigarro.
terça-feira, 29 de abril de 2008
Veneza dos Trópicos
Enquanto o mundo, as empresas, digo, aguardam o inevitável, triste, apocalíptico colapso de tudo, nós, cariocas, temos lá uma coisa com a qual nos alegrarmos. Antes que vo-la conte, todavia, urge que pensais na elevação do nível do mar não como último, óbvio e ululante, presságio do desfecho de nossa ex-istência, mas como nobilificante bem que transformará nosso Rio de Janeiro, cidade fora-de-série, na mais chique de todas as metrópoles decadentes! Mais elegante que Paris, Milão, Praga, Londres, Antuérpia, todas essas. Mais que Veneza.
Seremos a Veneza dos Trópicos. Bossa Nova nos canais.
Que alegria. É carnaval.
Seremos a Veneza dos Trópicos. Bossa Nova nos canais.
Que alegria. É carnaval.
domingo, 27 de abril de 2008
Nada de título
, e aí o menino se virou e virou um vira-vira: lata, lobo e os home! Mas, o quê? que que que que aconteceu aqui qui qui qui? Qui-quiri-quiri,-quiquiii, disse o pato da lagoa cor de água-sanitária.
- A vida na cidade é tão bonita, né, não, primo?
- Eu lá sou seu primo, sinxerga, marreco pereco teco.
- Sou quem digo que sou! (e o pato se pôs a proclamar clamar bradar antífonas bonitinhas,)
Sou malfeito-picapá!
Sou Hitler!
Não sou riponga!
Sou a araponga!
Sou a dança do tangará!
Sou Faustão!
Sou ladrão!
Você que mamará
das tetas da Margarete Tátcher
Diga pra mim que não!
Não há como sermos todos lodo
Por isso que uns tão läncima,
outros tão lämbaxo.
Então largue essa metrelha vermalha
E venha fazer direito,
ô leninista sem-cheiro!
- A vida na cidade é tão bonita, né, não, primo?
- Eu lá sou seu primo, sinxerga, marreco pereco teco.
- Sou quem digo que sou! (e o pato se pôs a proclamar clamar bradar antífonas bonitinhas,)
Sou malfeito-picapá!
Sou Hitler!
Não sou riponga!
Sou a araponga!
Sou a dança do tangará!
Sou Faustão!
Sou ladrão!
Você que mamará
das tetas da Margarete Tátcher
Diga pra mim que não!
Não há como sermos todos lodo
Por isso que uns tão läncima,
outros tão lämbaxo.
Então largue essa metrelha vermalha
E venha fazer direito,
ô leninista sem-cheiro!
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Desabafo
Porque o assassinato deliberado da língua inglesa e todas as outras? Nacionalismo lingüístico é banal, patético e ignorante... Enche-me o saco ouvir dizerem que "tem que falar errado mermo". Pelamordedeus, que é isso? Que merda... Odeio as pessoas que têm orgulho da própria ignorância... Não digo que sou o mestre Yoda e ser-lhes-ia útil uma pequena gnose Pedrística, mas que pelo menos parem de bancar os heróis e fossem vistos como os trogloditas, bárbaros, visigodos que são de verdade!
Desabafei, taí.
Desabafei, taí.
domingo, 13 de abril de 2008
E o ser ia...
Seria masoquista de mim forçar meus olhos a encarar minha cegueira? Seria tolo de mim ignorar as inverdades e estabelecer nas físicas quânticas as certezas mentirosas dos homens fracos? Seria eu um menino? Seria, talvez, um idiota? Seria inconstante de mim exigir dos outros assistir ao History Channel uma vez na vida? Seria preguiça dar ao meu fígado um Home Theater? Seria imprudente retornar à pátria de onde nunca parti? Seria duvidoso? Seria, será?
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