De que me vale todo esse castelo que não construi, se não sou íntegra? Ando cansada, embora mal use minhas pernas para caminhar sozinha: sempre tive uma legião para atender a todas as necessidades que tinha e destinha.
Não estou nua, mas rasguei meu vestido, aquele que não sei quem coseu.
Tampouco estou bêbada. Acho que nunca estive de mais sóbria em todo o sempre, se é que o tempo existiu antes de eu nascer e, agora, nascer.
Agora eu quero o mar inteiro, sem vidro. Quero voar, sem madeira ou metal. Quero sair da linha, eu bonde, conduzida.
Agora eu quero afundar completamente na terra, sentir o gosto do chão, do podre, da carne em putrefação até vomitar - essa minha expressão que, descubro, é a mais sincera e secreta. Quero misturar-me aos porcos, aos pombos, aos ratos, às mais vis bactérias, eu que sempre fui mais rota que o asco por si.
Quero morder a carne, ainda que a minha , sentir o gosto da substância, aquilo que move o mundo e que por tanto tempo me foi negado.
Quero deitar nos campos e me deixar levar pelo cheiro das dardípias, vivas ou mortas, sob a chuva ou não, porque o meu desejo é de ser, é viver o momento, o instante-já, o não importa.
Quero chegar ao mais fundo o possível, para que eu possa enfim entrar em equilíbrio com o universo, o cosmo, o inferno que for. Entrar em equilíbrio comigo mesma, embora não seja a paz garantida.
É a partir de então que eu conseguirei o que quero, embora ainda não saiba o que quero de fato. Acho que quero o fato, a Verdade absoluta: eu. Eu sou ou não sou um fato?
Eu sou, aqui.
Eu sei.
Próxima palavra: Taruela
Desafio da Última Linha
Acompanhe aqui as sugestões de cada um:
Desafio dos Títulos -Encerrado
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
sábado, 19 de dezembro de 2009
Amélia
Tô cansada de viver
com esse estrupício
Chego em casa sempre tarde,
faço sacrifício.
E ele só no bem-bom
Rei do desperdício.
Vou te dizer, meu amigo:
Viver é difícil.
Vou me emputecer de vez
vou morar no hospício.
Melhor que nesse barraco
Que nesse edifício.
Vou explodir essa merda
Vou jogar um míssil.
Esse grande vagabundo
Só traz malefício!
Ele tá enorme, moço:
Não faz exercício.
Um dia vou me jogar
De um precipício
Pra mostrar pr'esse maldito
Pra esse patrício
Que meu esforço foi fato,
não foi fictício.
Pausa e respiração
Pensando melhor, de amor
Existe um resquício.
Entre a raiva e o ódio,
há um interstício!
Ele me faz mal, mas gosto:
acho que é meu vício.
Ele é ruim, mas é meu,
e é vitalício!
Por ele, acho que aguento
Todo esse suplício
Ele é gordo, mas gostoso.
(É alimentício!)
Suportá-lo, enfim, parece
ser o meu ofício
Mas se me desrespeitar
Eu volto pro início!
com esse estrupício
Chego em casa sempre tarde,
faço sacrifício.
E ele só no bem-bom
Rei do desperdício.
Vou te dizer, meu amigo:
Viver é difícil.
Vou me emputecer de vez
vou morar no hospício.
Melhor que nesse barraco
Que nesse edifício.
Vou explodir essa merda
Vou jogar um míssil.
Esse grande vagabundo
Só traz malefício!
Ele tá enorme, moço:
Não faz exercício.
Um dia vou me jogar
De um precipício
Pra mostrar pr'esse maldito
Pra esse patrício
Que meu esforço foi fato,
não foi fictício.
Pausa e respiração
Pensando melhor, de amor
Existe um resquício.
Entre a raiva e o ódio,
há um interstício!
Ele me faz mal, mas gosto:
acho que é meu vício.
Ele é ruim, mas é meu,
e é vitalício!
Por ele, acho que aguento
Todo esse suplício
Ele é gordo, mas gostoso.
(É alimentício!)
Suportá-lo, enfim, parece
ser o meu ofício
Mas se me desrespeitar
Eu volto pro início!
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Inominável
Chovia e estava um pouco escuro, mas tudo se iluminava quando relampejava. Ele andava um pouco trôpego, mas confiante, mesmo que não soubesse muito bem aonde estava indo.
Parou.
Que fazer? Não sei e já nem quero saber.
Embora perdido, felicitava-se:
Estava livre, mesmo não sabendo muito bem o que fazer com isso.
De princípio estranhou, porque estar, assim, solto, era novo demais. Era reconfortante, apesar de impossível de se nomear efetivamente. Sentiu-se acarinhado, pôs-se a caminhar novamente.
Não havia ninguém por perto, para testemunhar o que se seguiria.
Do nada, veio o tiro, que tirou completamente a liberdade do rapaz e deixou a boca, antes com o gosto do inominável, com gosto de sangue, real e concreto.
Ele voltara ao concreto do chão.
Parou.
Que fazer? Não sei e já nem quero saber.
Embora perdido, felicitava-se:
Estava livre, mesmo não sabendo muito bem o que fazer com isso.
De princípio estranhou, porque estar, assim, solto, era novo demais. Era reconfortante, apesar de impossível de se nomear efetivamente. Sentiu-se acarinhado, pôs-se a caminhar novamente.
Não havia ninguém por perto, para testemunhar o que se seguiria.
Do nada, veio o tiro, que tirou completamente a liberdade do rapaz e deixou a boca, antes com o gosto do inominável, com gosto de sangue, real e concreto.
Ele voltara ao concreto do chão.
sábado, 3 de outubro de 2009
Os pequenos espectros
Ao contrário do que se vê na crença popular, os pequenos espectros caminham a qualquer hora, podendo inclusive aparecer à luz do dia, andando trôpegos e lentos, como sempre fizeram.
Estão perdidos, mas andam certos, mesmo que para lugar nenhum, já que não têm lugar.
Embora não se deem conta de que o fazem, existem por aí, com a intenção magna de um ser: procurar a existência plena.
A subsistência.
Eis a razão de ser deles, que mal têm o que vestir. Andam sujos e surrados, preocupados apenas com o agora, o instante-já, porque o futuro a Deus pertence – e Ele há muito tempo se esqueceu desses seus filhos sem alma.
Um dia, quem sabe, encontrarão a luz e voltarão aos braços do Pai eterno.
Enquanto não o fazem, continuam aos pés do pai terreno, que os dá um luzir de alegria dentro da caverna de suas vidas, onde a esperança e o futuro já desistiram de chegar.
Estão perdidos, mas andam certos, mesmo que para lugar nenhum, já que não têm lugar.
Embora não se deem conta de que o fazem, existem por aí, com a intenção magna de um ser: procurar a existência plena.
A subsistência.
Eis a razão de ser deles, que mal têm o que vestir. Andam sujos e surrados, preocupados apenas com o agora, o instante-já, porque o futuro a Deus pertence – e Ele há muito tempo se esqueceu desses seus filhos sem alma.
Um dia, quem sabe, encontrarão a luz e voltarão aos braços do Pai eterno.
Enquanto não o fazem, continuam aos pés do pai terreno, que os dá um luzir de alegria dentro da caverna de suas vidas, onde a esperança e o futuro já desistiram de chegar.
sábado, 12 de setembro de 2009
Ignorância
Ultimamente venho flertando com o conceito da inexistência, com o conceito do não-aqui, da inverdade que se faz presente simplesmente em sua consolidação cabal. Flertei com o conceito de consciência, de cotidiano, de tempo, de distância, de pensamento. Cheguei a uma excelente conclusão:
Nada.
Nada sacramenta mais minhas descobertas sobre a inexistência que o vazio de um nada que, por mais que verbal, inexiste, existindo, e se prova e reprova contrário a si próprio na própria criação de uma palavra para designar o que, por natureza, é impassível de designação.
Nada.
Nada sacramenta mais minhas descobertas sobre a inexistência que o vazio de um nada que, por mais que verbal, inexiste, existindo, e se prova e reprova contrário a si próprio na própria criação de uma palavra para designar o que, por natureza, é impassível de designação.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Lamentação
Já faz um tempo que descobri. Foi na pré-adolescência. O tempo que demorei para dominá-lo é inumerável. Creio que até hoje não o controlo muito bem, mas não é exatamente esse o meu lamento.
Muito prazer, tenho um super poder.
Sei voar – levitar, para ser mais exato – mas não me peça para explicar como: eu mesmo não sei e há coisas que talvez seja melhor ignorar.
Não pense, porém, que com isso, grandes responsabilidades aparecem. Para dizer a verdade, o que eu mais gostaria era ter, de fato, uma responsabilidade.
Não sou super herói.
Cresci assistindo a vários clássicos, que me inspiraram a usar meu dom para o bem, mas quanto mais me controlava, mas via que eu não poderia fazer grande coisa.
Eis que tenho um poder maravilhoso, mas que não pode ser usado em prol da humanidade.
Não posso lutar contra bandidos: não tenho uma força invejável e nem sou à prova de balas.
Também não posso salvar pessoas em um trem desgovernado, afinal não tenho grande velocidade.
É como se eu fosse um pássaro. Desnecessário e dispensável.
De que me adianta ter um poder –e ter, com isso, que viver, de certa forma, escondido, de ter locais específicos para usá-lo - e não servir à população com isso?
Onde ficam minha coragem e minha auto-estima, se no meu sonho quero algo para defender as pessoas e, no fim, só tenho algo que me permite fugir do perigo, se ele aparece?
Resta-me, enfim, aproveitá-lo eu mesmo e lamentar, aqui nesse bar, minha inutilidade.
Muito prazer, tenho um super poder.
Sei voar – levitar, para ser mais exato – mas não me peça para explicar como: eu mesmo não sei e há coisas que talvez seja melhor ignorar.
Não pense, porém, que com isso, grandes responsabilidades aparecem. Para dizer a verdade, o que eu mais gostaria era ter, de fato, uma responsabilidade.
Não sou super herói.
Cresci assistindo a vários clássicos, que me inspiraram a usar meu dom para o bem, mas quanto mais me controlava, mas via que eu não poderia fazer grande coisa.
Eis que tenho um poder maravilhoso, mas que não pode ser usado em prol da humanidade.
Não posso lutar contra bandidos: não tenho uma força invejável e nem sou à prova de balas.
Também não posso salvar pessoas em um trem desgovernado, afinal não tenho grande velocidade.
É como se eu fosse um pássaro. Desnecessário e dispensável.
De que me adianta ter um poder –e ter, com isso, que viver, de certa forma, escondido, de ter locais específicos para usá-lo - e não servir à população com isso?
Onde ficam minha coragem e minha auto-estima, se no meu sonho quero algo para defender as pessoas e, no fim, só tenho algo que me permite fugir do perigo, se ele aparece?
Resta-me, enfim, aproveitá-lo eu mesmo e lamentar, aqui nesse bar, minha inutilidade.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Herói de ninguém
O dia havia sido cheio. Cansado, o rapaz tomou um ônibus para casa, tal como fazia quase sempre.
Já se habituara à falta de educação alheia, mas lutava secretamente para educar as pessoas, ainda que timidamente, sem palavras. Para tanto, limitava-se aos gestos - sempre amplos, como que para indicar os procedimentos corretos.
Nesse dia em especial, um mal-educado aleatório, sentado à sua frente, jogou um papel de paçoca no chão.
Vendo isso, abaixou-se o rapaz com todo o cuidado para pegar o tal lixo, apesar de estar num ônibus cheio.
Recolheu-o e o guardou na mochila. Ao olhar à sua volta, ninguém havia percebido seu inacreditável ato heroico em relação à integridade do veículo. Ele havia salvado o ônibus da total imundície e não recebera em troca um olhar, um sorriso que fosse, um apoio, um suporte para que pudesse continuar lutando em prol da limpeza e do asseio do transporte público!
Não é que esperasse algo mirabolante. Não queria nenhuma condecoração, mas não precisavam continuar todos absortos em seus pensamentos e aparelhos eletrônicos! Ser notado já seria alguma coisa.
Saltou do ônibus e pôs-se a caminhar para casa, tal como fazia quase sempre. No caminho, uma senhora com seus muitos anos o pediu para indicar o caminho da estação de metrô. O rapaz se ofereceu para acompanhá-la até a estação, já que aquela região não era a mais segura da cidade.
Como toda boa velha, durante o relativamente curto percurso ela lhe contou toda sua vida, desde os motivos que a fizeram pegar o metrô até a destinação a que ia, passando pelas razões de não pegá-lo sempre.
Chegando à estação, a velhinha se virou para ele:
-Meu querido, muita bênção na sua vida! Obrigado por acompanhar a vovó, viu? Qual seu nome? Vou orar muito por você! Porque lá na minha igreja...
E após um minuto de solilóquio, ele se despediu e ela adentrou a estação.
O rapaz não era religioso, mas uma bênção divina já era um ótimo motivo para continuar sendo gentil e educado em relação à vida. Era uma forma que ele tinha de agradecer os bons ventos que acompanhavam. Diferente, enfim, das religiões, as boas ações que fazia não eram uma forma de conseguir créditos com Deus. Estava abençoado por quem quer que fosse, mas o sorriso daquela senhora já foi tudo.
Enquanto isso, no ônibus que ele deixara, os passageiros comentavam em voz baixa: Aquele moço lá sempre pega o lixo do chão. Depois deve vender e ganhar dinheiro. Tão bonito, tão jovem e já vivendo assim. Esse mundo é muito cão mesmo.
Já se habituara à falta de educação alheia, mas lutava secretamente para educar as pessoas, ainda que timidamente, sem palavras. Para tanto, limitava-se aos gestos - sempre amplos, como que para indicar os procedimentos corretos.
Nesse dia em especial, um mal-educado aleatório, sentado à sua frente, jogou um papel de paçoca no chão.
Vendo isso, abaixou-se o rapaz com todo o cuidado para pegar o tal lixo, apesar de estar num ônibus cheio.
Recolheu-o e o guardou na mochila. Ao olhar à sua volta, ninguém havia percebido seu inacreditável ato heroico em relação à integridade do veículo. Ele havia salvado o ônibus da total imundície e não recebera em troca um olhar, um sorriso que fosse, um apoio, um suporte para que pudesse continuar lutando em prol da limpeza e do asseio do transporte público!
Não é que esperasse algo mirabolante. Não queria nenhuma condecoração, mas não precisavam continuar todos absortos em seus pensamentos e aparelhos eletrônicos! Ser notado já seria alguma coisa.
Saltou do ônibus e pôs-se a caminhar para casa, tal como fazia quase sempre. No caminho, uma senhora com seus muitos anos o pediu para indicar o caminho da estação de metrô. O rapaz se ofereceu para acompanhá-la até a estação, já que aquela região não era a mais segura da cidade.
Como toda boa velha, durante o relativamente curto percurso ela lhe contou toda sua vida, desde os motivos que a fizeram pegar o metrô até a destinação a que ia, passando pelas razões de não pegá-lo sempre.
Chegando à estação, a velhinha se virou para ele:
-Meu querido, muita bênção na sua vida! Obrigado por acompanhar a vovó, viu? Qual seu nome? Vou orar muito por você! Porque lá na minha igreja...
E após um minuto de solilóquio, ele se despediu e ela adentrou a estação.
O rapaz não era religioso, mas uma bênção divina já era um ótimo motivo para continuar sendo gentil e educado em relação à vida. Era uma forma que ele tinha de agradecer os bons ventos que acompanhavam. Diferente, enfim, das religiões, as boas ações que fazia não eram uma forma de conseguir créditos com Deus. Estava abençoado por quem quer que fosse, mas o sorriso daquela senhora já foi tudo.
Enquanto isso, no ônibus que ele deixara, os passageiros comentavam em voz baixa: Aquele moço lá sempre pega o lixo do chão. Depois deve vender e ganhar dinheiro. Tão bonito, tão jovem e já vivendo assim. Esse mundo é muito cão mesmo.
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