Desafio da Última Linha

Acompanhe aqui as sugestões de cada um:

Desafio dos Neologismos - Encerrado
Desafio dos Títulos -Encerrado


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

[Desafio] Me chama de chão!

tomei tua cachaça pra ficar sóbria o bastante para talvez te esquecer, mas, e agora, o que me resta? umas roupas rasgadas no armário, umas poucas idéias na cabeça – dentre as quais você vaga e não sabe – e teu cheiro permeando a minha sala, que eu não arrumo desde que você veio aqui, a vez em que eu atingi tal êxtase que, desde então, acabei por me esquecer de viver – mas não de você – até que cheguei no ponto em que me encontro agora, mesmo que não entenda muito bem onde estou; só você sabe o que acontece comigo no momento, porque você está dentro de mim (não literalmente), meu bem, então te peço: me explica. me conta o que eu faço agora que você não está aqui pra que eu seja sua, pra que você me arranhe, pra que você me (sub)meta; eu que por muitas vezes fui teu capacho, aquilo em que você escarrou e cuspiu e bateu e agora simplesmente descarta como algo que te dá asco, nojo, repulsa; me conta o que eu te fiz pra que agora estejamos os dois nessa situação – na verdade, para que eu esteja nessa situação, porque você deve estar muito bem onde quer que esteja e eu, estou muito mal, onde quer que eu esteja, porque não sei – me conta o que eu te fiz pra que agora estejamos os dois nessa situação;
liga pra mim, mas se não ligar, me liga pra dizer que não vai ligar e, se resolver vir aqui, venha descalço e, por favor, não pisa em mim, mesmo que lembre que eu sinto um prazer monstruoso e vil e gosto quando você me chama de chão,

domingo, 28 de dezembro de 2008

Comunismo, e o porquê de não ter títulos

Não há Gorbatchev, Muro, Embargo: no final das contas, o Comunismo consome a si mesmo como uma vela. Até queima quem for idiota o suficiente para pôr o dedinho ali. Pelo menos o Capitalismo sobrevive a si mesmo.

Nesse sentido, o Capitalismo é como um emo, sempre se cortando, às vezes de leve, às vezes mais gravemente, mas sempre se recuperando. Já o Comunismo, ah, o Comunismo é como um roqueiro que começa bombando, exagera e morre num anominato entorpecido e decadente.

Bem feito aos idealistas idiotas, é tudo o que digo.



E "Long Live Santa Claus".

Esquina

Era um papo de manhã de Natal com minha mãe subindo a General Roca a caminho do metrô quando vi, encostado à parede externa de um daqueles bancos, se não me engano um Bradesco, um menino de rua, encolhido, agarrado às próprias pernas, chorando. Lispectoralmente, não paramos de andar. Minha mãe notou e fez sua usual expressão de pena, angústia, seeupudessefazeralgoarespeitismo. É uma pena, realmente. Não quis pensar em nada, mas sabia exatamente no que não pensar. Você sabe do que estou falando.

Como sou hipócrita, falso, consumista, egoísta, materialista, despreocupado, distraído, ocupado, sem tempo.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Do fundo do baú ou Relíquia ou Devaneio ou Família ou, simplesmente, "II"

Cabe dizer que esse texto foi escrito por mim há quase dois anos e encontrado há quase dez minutos. Não vou corrigir possíveis erros de português. Deixarei tudo aqui, original, copiado e colado.

Hoje, num estado levemente alcoolizado, parei por alguns segundos e refleti sobre meu primo. Na verdade, refleti sobre a curiosa maneira na qual ele se alienava dos acontecimentos do mundo.
Talvez por morar mais longe ou por puro capricho, ele tinha uma maneira peculiar de se ausentar de todo e qualquer problema referente ao mundo.
Nunca o vira falar sobre a AIDS na África ou o aquecimento global. Suas histórias mexiam com minhas emoções - fossem elas as tristezas, as alegrias ou as surpresas - mexiam com minhas emoções de um modo estranho, como se ele nunca tivesse sabido de tais problemas ou ainda que estes nunca tivessem acontecido antes.
Ele falava sobre coisas julgadas na maioria das vezes banais, como as músicas que ele compunha, as aventuras de mais um dia na roça - ele mora numa região meio interiorana do Rio de Janeiro, mesmo que estude Matemática no Centro - e todas essas histórias me cativavam como se eu não tivesse mais nada a me preocupar, apenas seus quase-problemas.
O curioso de tudo é que sempre cobro das pessoas uma certa carga de problemas, mas dele, justamente dele, nunca me passara pela cabeça perguntar o que isso tudo tinha a ver com a problemática atual do mundo.
Não que ele fosse bom contador de histórias - aliás ele o fazia de uma maneira tão ruim quanto a minha: cheia de interrupções, mas estas eram de uma alienação tão curiosa que me deixavam à parte de todo aquecimento global, toda fome, tudo.
Ele compunha músicas - sim, meu primo é o que se pode dizer de um poeta....uma pessoa poética talvez...com uma poesia ímpar de alguém que não se preocupa com o que acontece com o mundo atual, mas não causa diferenças gritantes na não-preocuoação sobre um pé-de-cana, ou sobre alguma coisa em inglês furado,ou ainda sobre amor e falta (falta essa de preocupação para com o amor?)
Lembro de um trecho de uma música que dizia alguma coisa sobre "cantar uma música sobre você num bar vazio e, ao abrir os olhos, não haver mais ninguém ouvindo".

Enfim, meu primo é uma pessoa curiosamente peculiar.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

[Desafio] Cancelado Devido a Chuva

Sabe aquele momento em que sua vida será resolvida? Pois bem, era no qual ela se encontrava. Doze anos sem vê-lo. Doze anos a esperá-lo. E finalmente acontecera.

Construíra uma vida, é bem verdade, e uma boa. No entanto, nunca vivera. Escolhera um marido que não se importava com suas ausências mentais, seus filhos achavam que era só seu jeito de ser. Depois de tanto tempo, ninguém se importava mais em interrogá-la, ninguém se lembrava mais como ela era e suas distâncias passaram por envelhecimento. Quisera ela ter se tornado tão sábia quanto a consideravam nesses momentos. Pouco era necessário para desencadear seus devaneios. Por vezes, o barulho do vento era suficiente.

Questionara-se, também, há tempos, se não estava enlouquecendo. Concluíra que não. Se enlouquecesse, o estado senil impediria a saudade de sufocá-la nesses momentos. Além do mais, não tinha status para tal. Não fora tão culta ou tão altruísta que lhe garantisse o direito.
Perdera-se em devaneios mais uma vez. O tempo estava passando e, se queria alcançá-lo ainda nos portões da cadeia, deveria sair agora. Olhou pela janela e percebeu que o motivo de seu retorno à realidade fora a chuva torrencial que caíra sem aviso. Sempre havia chuva nessa época do ano. Fora nessa mesma estação em que se conheceram. Ela o viu pela primeira vez saindo de seu escritório na praia do Flamengo...

Pronto. Voltara a seus devaneios.

Quanto ao momento em que sua vida seria resolvida? Cancelado. Até a próxima lucidez.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Quatro parágrafos para te salvaguardar

Quando as sirenes chegaram e te levarem a outro lugar: lembra meu rosto te dizendo adeus, lembra minhas mãos, agitando o vento da gare. Congela aquele instante, porque eu, eu vou me salvar; e tu, eu não sei.

Escondi as provas num caminho isolado, numa cabana abandonada na floresta; lá onde as sombras desenham contornos na terra. Procura na escrivaninha mofada, uma das suas gavetas conterá tudo o que ninguém pode ver.

Não te preocupes: guardo comigo uma foto tua antiga, em que me olhas um sorriso descabelado e desconfiado. Está na minha carteira, aquela velha de couro falso; o tom sépia do teu rosto vai me fazer esquecer a fuga.

Pensa bem, meu amor, nosso romance será escrito pelo telefone, entre orações bêbadas e arrependimentos, e descuidos, e confissões chorosas. Construiremos, pensa bem, um legado de saudade e crime, a nossa história.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

No elevador

De início houve o estranhamento, que não foi mútuo por razões óbvias.
Edward Meener encontrava-se num elevador fechado, levemente escurecido pela falta de uma lâmpada e ao lado de um morto.
Havia um morto ao lado de Edward, em cima de uma maca, sem razões lógicas e plausíveis.
A situação era absurda como um sonho, pois ninguém deixaria um morto numa maca subindo e descendo os elevadores do único prédio residencial da Tina Ulson St.
Mas era real.

Depois, houve a dúvida.
Há quanto tempo estaria ali. Quem era.
Nunca vira o indivíduo no prédio - não que fosse dos vizinhos mais sociáveis.
Porque ali. Porque não tomei as escadas.
A resposta desta, entretanto, era simples: eram quarenta e cinco andares. Ir de escada era simplesmente exaustivo demais.
Pois então, que aceitasse o castigo divino à sua preguiça: andar no elevador ao lado do morto.
Estaria mesmo morto.

Então, houve o medo.
O medo não precisa de explicação, porque todo o mundo teme a morte.

E houve a espera.
Quarenta e cinco andares que não passavam nem sob toda a reza que Edward Meener fazia. É claro que era da boca para fora, por que ele nunca acreditara nessas coisas de deuses.

E houve a esperança.
Quando o elevador se aproximava do andar, ouviu-se um baque surdo e ele parou.
Que piada: entre dois andares, dentre eles aquele no qual Edward sairia do elevador rumo à sua liberdade.

Então houve o terror, que vem do medo, que não precisa de explicação, porque todo o mundo teme a morte.

E mais espera houve, mas dessa vez ela não vinha acompanhada de reza. Era acompanhada de um Edward encolhido no canto do elevador, de modo que não mais conseguia ver o morto em cima de sua maca.
O morto causava um pânico tremendo nele, mesmo que não movesse um músculo.

E houve a esperança, mais uma vez.
O elevador voltou a funcionar, ao mesmo tempo em que se ouviu uma voz amigável e feminina dizendo que houve uma rápida queda de energia e que tudo estava sob controle.

Enfim, houve o alívio, porque Edward saiu do elevador (incrivelmente suado) e tomou o rumo que tomaria normalmente, ainda um pouco abalado e sem nenhum arranhão, até porque não havia a possibilidade.
Porque o morto continuava sem mover um músculo.