Conta que da família, Joana era a mais bem-sucedida e que era, portanto, a mais invejada. Um mimo de gente, uma jóia rara, de dotes clássicos: tinha beleza, tinha graça, tinha sensibilidade, tocava piano, sabia costurar, cantava bem, atuava, pintava, até mesmo escrevia de vez em quando e dela saíam as poesias mais inteligentes, mas que, por qualquer motivo, não as publicava e somente poucos as liam.
Mas nem só de classicismo vivia a jovem. Era também um estandarte da mulher moderna: articulada, bem-sucedida, estudiosa, trabalhadora e namoradeira – sempre de um homem só, e, aliás, um deus grego, segundo as vizinhas, e um viadão, segundo os vizinhos.
Causava pontadinhas de inveja nas irmãs, nas primas, nas tias e até nas inamigas. E disso até onde parece ela tinha consciência, embora não ligasse de todo.
Pois então, conta que um dia o olho gordo pegou de vez e ela sofreu um acidente de moto, mas só se feriu o suficiente pra ficar um tempo num hospital. A beleza estava intacta, ufa.
E no hospital, ela recebeu uma cesta de flores, com um cartão modesto, assinado por uma das tias, desejando melhoras.
E ao ver o cartão, antes que lesse, ela sentiu que.
Ela sentiu que.
Sentiu que.
Que.
Porra, ela sentiu que.
O que ela sentiu? Calma, vamos lá: ela tem um acidente, recebe um cartão de uma tia invejosa e quando vê o cartão sente que.
Não dá! Argh, não dá pra dizer o que ela sentiu!
Mas eu sei o que ela sentiu, porra. É algo, aliás, bem lógico de se sentir numa situação dessas. Ela sentiu que.
Não dá. Não sai. E agora?
Não consigo fazer ela sentir. E agora? Ela precisa sentir, meu deus. Ela merece. Ela merece sentir isso de.
E não tem mais ninguém para sentir por ela! É só ela, com tudo o que a caracteriza que pode sentir isso de.
Um sinônimo, é isso, um sinônimo. Posso dizer que ela sentiu que cambeps.
Que czztrais.
Que ascmpin!
Que suc!
Que merda! E agora que não sai? O que ela sente não sai e o que parece sai errado.
Joana sofre um acidente. Joana sofre um acidente e é hospitalizada. Joana é hospitalizada e recebe um cartão. Joana lê o cartão e, finalmente, sente que.
Ela sente que.
Peqpocz é sentido por ela.
Eu lá sou irresponsável de deixar ela viver sem sentir isso que lhe cabe? Criei uma vida, porra, agora sou responsável por ela. É meu dever, e um direito dela, poder sentir tudo o que lhe é de direito, inclusive sentir que.
É isso.
E no hospital, ela recebeu uma cesta de flores, com um cartão modesto, assinado por uma das tias, desejando melhoras.
E ao ver o cartão, antes que lesse, ela sentiu que o coração parara.
Pronto.
Desafio da Última Linha
Acompanhe aqui as sugestões de cada um:
Desafio dos Títulos -Encerrado
domingo, 23 de maio de 2010
sábado, 1 de maio de 2010
Parte 4
Cheguei, filha da puta!
Você achou que nunca mais fosse me ver,
Mas com teu carma, só muita luta
Pra não ficar agora à minha mercê.
Cadê as crianças?
Na casa de um amigo, que o caralho!
Cadê as crianças?
Você esqueceu elas no trabalho?
Quantas mudanças,
Até arranjou emprego,
Agora pega a merda do carro e vai buscar
Antes que eu precise o teu pinto chamuscar
Com meu cigarro, só aí 'cê pede arrego.
Assim que elas chegarem,
Vou fazer umas perguntas,
E se elas não falarem,
Corto a língua sua e dela, as duas juntas.
Falar nisso, velho amor,
Onde está ela?
Sabia que eu viria e já pressentiu a dor?
Ou se ocupa simplesmente de limpar uma panela?
Enquanto isso, me sento, e peço água.
Não me traga quente, nem gelada,
A temperatura certa abranda minha mágoa,
Só traga as crianças, e não me esconda nada.
Você achou que nunca mais fosse me ver,
Mas com teu carma, só muita luta
Pra não ficar agora à minha mercê.
Cadê as crianças?
Na casa de um amigo, que o caralho!
Cadê as crianças?
Você esqueceu elas no trabalho?
Quantas mudanças,
Até arranjou emprego,
Agora pega a merda do carro e vai buscar
Antes que eu precise o teu pinto chamuscar
Com meu cigarro, só aí 'cê pede arrego.
Assim que elas chegarem,
Vou fazer umas perguntas,
E se elas não falarem,
Corto a língua sua e dela, as duas juntas.
Falar nisso, velho amor,
Onde está ela?
Sabia que eu viria e já pressentiu a dor?
Ou se ocupa simplesmente de limpar uma panela?
Enquanto isso, me sento, e peço água.
Não me traga quente, nem gelada,
A temperatura certa abranda minha mágoa,
Só traga as crianças, e não me esconda nada.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Rasgos
Quando te vi luziu-me uma centelha.
Perdi o rumo, o chão: perdi a fala.
Fiz-me cortês e, então, p'ra conquistá-la
Rasguei uns versos com tinta vermelha
Mas foi em vão tal poesia torta
Porque não te iludiam os pronomes
Para que me notasses, nossos nomes
Rasguei na casca duma árvore morta
E vendo qu'inda tinha fracassado,
Tentei um método desesperado:
Rasguei a pele em tatuagem rasa!
E ao perceber que não serias minha
Te amei da forma como me convinha:
Rasguei-te o peito e te pus toda em brasa!
Perdi o rumo, o chão: perdi a fala.
Fiz-me cortês e, então, p'ra conquistá-la
Rasguei uns versos com tinta vermelha
Mas foi em vão tal poesia torta
Porque não te iludiam os pronomes
Para que me notasses, nossos nomes
Rasguei na casca duma árvore morta
E vendo qu'inda tinha fracassado,
Tentei um método desesperado:
Rasguei a pele em tatuagem rasa!
E ao perceber que não serias minha
Te amei da forma como me convinha:
Rasguei-te o peito e te pus toda em brasa!
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
O píer
Essa faixa estreita
de madeira e de sonho
avança assim
sem obstáculos
lançando-se sem rodeios
ao encontro do mar
Dado um momento porém
pára talvez encantada
com a imensidão
E melhor do que vê-lo
o píer assim
de bem com esse mar
é caminhar sobre ele porque
à medida em que se anda
se esquecem os achaques
e as angústias da terra
para estar em contato
apenas com as águas
e com o que de bom trazem as águas
Nele avançamos e ao seu fim
nada mais nos resta que não
o infinito
de madeira e de sonho
avança assim
sem obstáculos
lançando-se sem rodeios
ao encontro do mar
Dado um momento porém
pára talvez encantada
com a imensidão
E melhor do que vê-lo
o píer assim
de bem com esse mar
é caminhar sobre ele porque
à medida em que se anda
se esquecem os achaques
e as angústias da terra
para estar em contato
apenas com as águas
e com o que de bom trazem as águas
Nele avançamos e ao seu fim
nada mais nos resta que não
o infinito
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
[Desafio] Lama
De que me vale todo esse castelo que não construi, se não sou íntegra? Ando cansada, embora mal use minhas pernas para caminhar sozinha: sempre tive uma legião para atender a todas as necessidades que tinha e destinha.
Não estou nua, mas rasguei meu vestido, aquele que não sei quem coseu.
Tampouco estou bêbada. Acho que nunca estive de mais sóbria em todo o sempre, se é que o tempo existiu antes de eu nascer e, agora, nascer.
Agora eu quero o mar inteiro, sem vidro. Quero voar, sem madeira ou metal. Quero sair da linha, eu bonde, conduzida.
Agora eu quero afundar completamente na terra, sentir o gosto do chão, do podre, da carne em putrefação até vomitar - essa minha expressão que, descubro, é a mais sincera e secreta. Quero misturar-me aos porcos, aos pombos, aos ratos, às mais vis bactérias, eu que sempre fui mais rota que o asco por si.
Quero morder a carne, ainda que a minha , sentir o gosto da substância, aquilo que move o mundo e que por tanto tempo me foi negado.
Quero deitar nos campos e me deixar levar pelo cheiro das dardípias, vivas ou mortas, sob a chuva ou não, porque o meu desejo é de ser, é viver o momento, o instante-já, o não importa.
Quero chegar ao mais fundo o possível, para que eu possa enfim entrar em equilíbrio com o universo, o cosmo, o inferno que for. Entrar em equilíbrio comigo mesma, embora não seja a paz garantida.
É a partir de então que eu conseguirei o que quero, embora ainda não saiba o que quero de fato. Acho que quero o fato, a Verdade absoluta: eu. Eu sou ou não sou um fato?
Eu sou, aqui.
Eu sei.
Próxima palavra: Taruela
Não estou nua, mas rasguei meu vestido, aquele que não sei quem coseu.
Tampouco estou bêbada. Acho que nunca estive de mais sóbria em todo o sempre, se é que o tempo existiu antes de eu nascer e, agora, nascer.
Agora eu quero o mar inteiro, sem vidro. Quero voar, sem madeira ou metal. Quero sair da linha, eu bonde, conduzida.
Agora eu quero afundar completamente na terra, sentir o gosto do chão, do podre, da carne em putrefação até vomitar - essa minha expressão que, descubro, é a mais sincera e secreta. Quero misturar-me aos porcos, aos pombos, aos ratos, às mais vis bactérias, eu que sempre fui mais rota que o asco por si.
Quero morder a carne, ainda que a minha , sentir o gosto da substância, aquilo que move o mundo e que por tanto tempo me foi negado.
Quero deitar nos campos e me deixar levar pelo cheiro das dardípias, vivas ou mortas, sob a chuva ou não, porque o meu desejo é de ser, é viver o momento, o instante-já, o não importa.
Quero chegar ao mais fundo o possível, para que eu possa enfim entrar em equilíbrio com o universo, o cosmo, o inferno que for. Entrar em equilíbrio comigo mesma, embora não seja a paz garantida.
É a partir de então que eu conseguirei o que quero, embora ainda não saiba o que quero de fato. Acho que quero o fato, a Verdade absoluta: eu. Eu sou ou não sou um fato?
Eu sou, aqui.
Eu sei.
Próxima palavra: Taruela
sábado, 19 de dezembro de 2009
Amélia
Tô cansada de viver
com esse estrupício
Chego em casa sempre tarde,
faço sacrifício.
E ele só no bem-bom
Rei do desperdício.
Vou te dizer, meu amigo:
Viver é difícil.
Vou me emputecer de vez
vou morar no hospício.
Melhor que nesse barraco
Que nesse edifício.
Vou explodir essa merda
Vou jogar um míssil.
Esse grande vagabundo
Só traz malefício!
Ele tá enorme, moço:
Não faz exercício.
Um dia vou me jogar
De um precipício
Pra mostrar pr'esse maldito
Pra esse patrício
Que meu esforço foi fato,
não foi fictício.
Pausa e respiração
Pensando melhor, de amor
Existe um resquício.
Entre a raiva e o ódio,
há um interstício!
Ele me faz mal, mas gosto:
acho que é meu vício.
Ele é ruim, mas é meu,
e é vitalício!
Por ele, acho que aguento
Todo esse suplício
Ele é gordo, mas gostoso.
(É alimentício!)
Suportá-lo, enfim, parece
ser o meu ofício
Mas se me desrespeitar
Eu volto pro início!
com esse estrupício
Chego em casa sempre tarde,
faço sacrifício.
E ele só no bem-bom
Rei do desperdício.
Vou te dizer, meu amigo:
Viver é difícil.
Vou me emputecer de vez
vou morar no hospício.
Melhor que nesse barraco
Que nesse edifício.
Vou explodir essa merda
Vou jogar um míssil.
Esse grande vagabundo
Só traz malefício!
Ele tá enorme, moço:
Não faz exercício.
Um dia vou me jogar
De um precipício
Pra mostrar pr'esse maldito
Pra esse patrício
Que meu esforço foi fato,
não foi fictício.
Pausa e respiração
Pensando melhor, de amor
Existe um resquício.
Entre a raiva e o ódio,
há um interstício!
Ele me faz mal, mas gosto:
acho que é meu vício.
Ele é ruim, mas é meu,
e é vitalício!
Por ele, acho que aguento
Todo esse suplício
Ele é gordo, mas gostoso.
(É alimentício!)
Suportá-lo, enfim, parece
ser o meu ofício
Mas se me desrespeitar
Eu volto pro início!
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Inominável
Chovia e estava um pouco escuro, mas tudo se iluminava quando relampejava. Ele andava um pouco trôpego, mas confiante, mesmo que não soubesse muito bem aonde estava indo.
Parou.
Que fazer? Não sei e já nem quero saber.
Embora perdido, felicitava-se:
Estava livre, mesmo não sabendo muito bem o que fazer com isso.
De princípio estranhou, porque estar, assim, solto, era novo demais. Era reconfortante, apesar de impossível de se nomear efetivamente. Sentiu-se acarinhado, pôs-se a caminhar novamente.
Não havia ninguém por perto, para testemunhar o que se seguiria.
Do nada, veio o tiro, que tirou completamente a liberdade do rapaz e deixou a boca, antes com o gosto do inominável, com gosto de sangue, real e concreto.
Ele voltara ao concreto do chão.
Parou.
Que fazer? Não sei e já nem quero saber.
Embora perdido, felicitava-se:
Estava livre, mesmo não sabendo muito bem o que fazer com isso.
De princípio estranhou, porque estar, assim, solto, era novo demais. Era reconfortante, apesar de impossível de se nomear efetivamente. Sentiu-se acarinhado, pôs-se a caminhar novamente.
Não havia ninguém por perto, para testemunhar o que se seguiria.
Do nada, veio o tiro, que tirou completamente a liberdade do rapaz e deixou a boca, antes com o gosto do inominável, com gosto de sangue, real e concreto.
Ele voltara ao concreto do chão.
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