Desafio dos Títulos -Encerrado
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
[Desafio] Os 11 motivos do Jacaré
Como assim? Depois de tanto tempo? Que absurdo! Ninguém sai daqui! Vai nos abandonar!
Uma fuzarca geral, um auê, afinal se tratava de parte da milícia da floresta! Humano prudente não entrava na água não, só por causa de Jacaré.
Para piorar a situação, ninguém encontrava o raio do Jacaré em lugar nenhum. Perguntavam pra quase toda a fauna e nada de resposta.
E quede Jacaré? Tava em casa, arrumando as malinhas feitas todas de couro de gente, enchendo de casacos de pele, cabelo, barba, bigode e até pentelho (que horror!) tinha nas roupas.
Até que a coruja, muito da esperta, resolveu questionar o papagaio, até que se achou o Jacaré.
- Ora, que te levou a querer sair de nossa agradável companhia, seu Jacaré?
- Ih, dona coruja, as razões são muitas, mas já te digo que a agradável companhia não existe, não. Esses bichos não param quietos! Meu modo de vida não agüenta essa bagunça não.
- Mas não é só isso, é?
- Ah, dona coruja, vou te contar um segredo: ando co’as costas destruídas de tanto nadar assim.
Vou pro Nilo, pro Sena, pro Tietê, até pra Lagoa Rodrigo de Freitas eu vou, porque essas piranhas me matam!
E partiu, sem ouvir resposta e sem deixar de mandar uma banana pro macaco – ai que ódio desse mico barulhento!
O tempo passou e nem notícias do seu Jacaré, e todos (até mesmo o mico) sentiam falta do danado, até que um dia, voltando de uma temporada de férias, papagaio matreiro e fofoqueiro tratou logo de espalhar a tragédia: Jacaré tinha virado bolsa de uma tal de Madame Sofia, dona de um bordel chiquésimo em São Paulo.
O comentário foi recebido com um pio de suspiro da coruja, que virou pra papagaio e disse:
-Eu bem que ia avisar: piranha tem é em todo lugar.
Próximo título: A máquina do mundo
[Desafio] O belíssimo dia em que o sol se levantou mas a manhã não nasceu
Árvore que voa não dá fruto, porque não se alimenta de matéria. Não cresce. Isso talvez explique a minha súbita e irremediável falta de criatividade. Onde já se viu escrever sem linha? Deus escreve certo por linhas tortas e eu, escrevo por linhas, quaisquer que sejam.
E a minha razão precisa responder a vários porquês. Minha árvore sem chão se alimenta de porquês. Eu tenho me alimentado de porquês e de toda sorte de besteiras, das que fazem mal a longo-prazo.
Ontem terminei aquele livro de que te falei. Terminei e joguei longe – não porque desgostei, pelo contrário – joguei longe porque também estava me deixando mal. Eu tenho sido masoquista nesse ponto: me agrada aquilo que me faz mal, de livros a porquês.
Meus porquês são minha nutrição e meu veneno.
Hoje o sol levantou, mas a manhã não nasceu, não para mim. Estava quente, eu sentia, mas eu me mantive de janelas fechadas e blecaute, no meu universo, pra evitar a claridade. Passei o dia à maquina de escrever, procurando o que te digitar. Se te digito, faço-o sem linhas. Se te escrevo, busco as minhas linhas.
Eis o meu problema: Ando sem linha de chão, sem linha de escrita e, portanto, digito.
A verdade, entretanto, é que não há problema. Por que? Porque não há. Eis tudo.
O meu universo não tem chão e nunca teve, mas hoje eu percebo que eu preciso dele, às vezes. Não que isso seja um problema. Eu já te disse: não há problema.
Não enquanto eu não estiver no chão e começar a andar na linha.
sábado, 29 de novembro de 2008
Erratum
Aumento silenciosamente meu império... Eba!
("Errata" é o plural de "erratum"; embora não seja de praxe, faço uso do que julgo ser o uso mais correto: "errata" para uma coletânea de correções, "erratum" para uma apenas.)
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Talvez CAp
Talvez esse não seja o melhor lugar para dizer isso. Não ligo.
Talvez devesse sentir falta. Sentir falta de risadas, choros, amizades, traições, coleguismos, falsidades, provas, férias, viagens, fofocas, tempos vagos, zueiras, conversas. Talvez não.
Ou até talvez venha a sentir falta disso tudo. Não agora.
Infelizmente, o que, hoje, vou levar com certeza e que não é um talvez, são as tristezas, rejeições, humilhações, amizades perdidas.
Talvez algumas amizades fiquem. Sei que algumas poucas pessoas gostaria que ficassem.
Enfim acabou. Talvez exista a falta do CAp daqui a algum tempo. Provavelmente não.
domingo, 23 de novembro de 2008
As Pererecas
Nunca, creio eu, paramos para pensar sobre as pererecas o tanto quanto devíamos. Abusamos das coitadas a bel prazer, quicando-as sobre qualquer superfície que prometa algum entretenimento para nossas mentes satisfeitas… Será que há mais nas pererecas? Ou será que são apenas pererecas?
Pois eu, enquanto entusiasta (e leigo) da mitologia quântica, acredito serem as pererecas as sumas representantes de uma outra dimensão na terra. Assim como o pé grande representa uma, os extraterrestres outra, os pombos outra mais, etc. Descobri isso numa tarde muito lúcida de recreação com minhas quatro amigas alterdimensionais.
Eu, com o status de artista – profissional dos devaneios, se assim preferir –, tenho o dom para-psíquico de me comunicar com seres cuja linguagem nos é completamente estranha. Nunca conversei com o pé grande ou o chupa-cabra, mas tenho certeza de que, se o fizesse, bateríamos altos papos.
E foi fazendo uso desse dom que passei aquela tarde proseando jovialmente com minhas companheiras. Fizeram-me suas reclamações, todas bastante sensatas e devidamente justificadas: querem que paremos de simplesmente quicá-las por aí, elas têm o direito de escolher quando e onde querem dar seus pulinhos; querem, também, que parem de ser vendidas nas bancas de jornal (“é um absurdo”, me confidenciou uma delas, “que séculos”, corrijo-a, pois há menos de dois séculos, o que configuraria como uso correto o singular, “após a abolição”, oficial, “da escravidão, sejamos vendidas dessa forma, como animais”) a preços degradantemente baixos; etc.
Também me esclareceram acerca de mais uma coisa: não são feitas em fábricas, como imaginava, mas são fruto de reprodução sexuada em sua dimensão e vêm para cá como diplomatas. Sim, as bolinhas que maltratamos e de que malcuidamos (mas mui bem-amamos) são, na verdade, diplomatas. Têm escolaridade e o caralho a quatro.
Aliás, nem todas são bonitinhas e bem dispostas como nossas conhecidas daqui da Terra. Disseram-me que a grande maioria é feia, normalmente de tons pastéis ou até cinzentas, e não passa de uma “alcatéia de alcoviteiras ignorantes”, como muito veemente colocou uma outra de minhas colegas. Apesar da aparente arrogância que demonstrou, disse-me serem muito pacientes e tolerantes.
As pererecas são gente fina, educada, sincera, divertida, sim, mas elas também têm sentimentos, têm lá suas mágoas e suas psico-cólicas. Temos de mostrar um pouco nossa humanidade, ser bons anfitriões para nossas visitantes... Nunca se sabe quando podem arquitetar um plano maquiavélico de dominação interdimensional.
Para finalizar, atentem meu apelo: tratem bem as pererecas! Elas não são gente, mas são como se fosse!
domingo, 16 de novembro de 2008
Título é coisa de comunista
O seu rosto, outrora pradaria, tornou-se um cânion. Seco, árido, áspero, empoeirado. Reparou isso quando se olhou no espelho pela manhã, uma manhã de domingo, ou de terça-feira, eram todas iguais, e viu um velho. Mas ele não era esse velho. A pessoa que ele via no espelho não era ele.
A luz o enganava, mexia com suas idéias, pensava, pensava, matutava: e quem seria você, a pessoa do espelho. Ele se perguntou se seria realmente ele e confrontou a verdade: envelhecera. Mas não era aquela pessoa, não podia ser, não era. Pára de bobagem, disse aos velhos olhos enevoados e cinzentos, com aquele aspecto cinzento da senectude, aqueles olhos cinzentos que zombam, que dizem que você já está velho e cinzento e deve morrer para deixar de ser um fardo cinzento para o mundo.
Dessa vez decidiu encarar a verdade: era ele, sim era ele e nada podia fazer... Quando ficara assim? Olhava seu próprio rosto, a expressão inevitavelmente vazia e profunda de uma fotografia importante, todas as manhãs, todas as manhãs olhava seu rosto e nunca havia notado as diferenças. Sabia que já fora jovem, lembrava-se desses dias, gloriosos dias de juventude, liberdade, liberdade, de viagens, de amores, de entusiasmo. Como era delicioso o entusiasmo da juventude, aquela ânsia por conquista, por qualquer coisa, aquela ânsia pela complexão, pela integridade, pela totalidade, pela vida intensa e muita, muita vida, por viver muito de uma vez só, pelas garfadas cheias, pelos pratos cheios, pelo sexo, o sexo, o sexo era maravilhoso.
Não era mais jovem, mas isso não significava não ser mais a mesma pessoa de antes, de forma alguma, ser velho não quer dizer ser outra pessoa, ou quer, ou não quer, ou quereria, pensava, pensava, refletia, matutava, cogitava, era. Fazia um mapa do cânion inexplorado de sua face. Hoje em dia, comia pouco, dormia pouco, trepava pouco, celebrava pouco, sua vida era um saco, se soubesse que seria assim quando era jovem teria se matado há muito tempo e isso o perturbava por demais, pois não queria tentar imaginar como pensava que seria quando era jovem, porque há certas sensações que o cérebro é capaz de guardar e outras ele perde, ele perde, ele se esquece delas, assim, num estalar dos dedos ele as deixa para trás, ele não se importa, o cérebro é insensível, é uma máquina, é um computador, ele não pensa, ele não quer, ele não decide, ele faz, ele executa, é um robô, é um autômato, afinal, nós somos autômatos, nós somos todos robôs, somos formigas, formigas idiotas, inúteis, impotentes, impossíveis, os robôs são formigas e as formigas são computadores, e isso o perturbava, pois seu rosto era diferente e tudo era diferente, mas nem tudo deveria ser diferente, ele queria ser como era antigamente, queria envelhecer ao contrário, queria fazer o caminho inverso, mas isso ia contra as leis da biologia e contra as leis da física e contra as leis de tudo e do mundo, mas o mundo não é tudo, nem a matemática é tudo, então ele se esqueceu de o que tudo era e se lembrou do que achava que era quando era mais jovem, e tudo se embaralhou como um baralho sem naipes e só cheio de coringas, cheio de coringas como bobos da corte que dançavam e faziam ruídos impacientes, indolores, inocentes e impávidos com seus guizos mortos, eram mortos, eram de metal, eram robôs, os guizos eram pequenos cérebros, como formigas que tilintam, como taças, eram taças que embriagavam os reis, e quem eram os reis ele não sabia, e de repente havia um reino e súditos e uma rainha e plebeus, muitos plebeus, o mundo é feito de plebeus e de elementos químicos, e os plebeus são a tabela periódica e ele achou que tudo isso não fazia sentido, nem sentido fazia, não fazia sentido, não tinha lógica, nada mais tinha lógica, deixava sua mente fazer divagações loucas, como um parque abandonado arenoso, ou seria uma casa de shows, um sítio de espetáculos, onde havia uma parede tombada cheia de holofotes que não funcionavam e havia uns esqueletos cubóides, é, umas barras de ferro preto que juntas formavam cubos, cubos, eram cubos, como jaulas, mas só tinha as arestas e uns outros eixos, ou talvez não tivesse eixos, sabe, sem eixos, sem eixos, só arestas e vértices e fórmulas e remédios e velhice e morreu.
sábado, 15 de novembro de 2008
Título é coisa de comunista
Este pequeno conto foi baseado num sonho que tive esta semana. É um tanto mais creófilo, mais violento, mais sanguinolento, mais perverso, mais twisted que meu costume. Que isso lhes sirva de precato. Não tolerarei comentários cujo principal objetivo seja advogar pela moral e pelos bons costumes ou qualquer palhaçada do gênero. Aceitarei, evidentemente, críticas ponderadas e justas de gente inteligente que saiba ler e escrever adequadamente, pois são eles os verdadeiros críticos. (Isso deve limitar o número de comentários, que já não é lá assim tão alto.)
Numa noite cor de sangue, a campainha tocou em sua casa. Ele se levantou do sofá, sacudindo a inércia que se alastrava sobre ele como um tumor maldito nas horas de televisão. Deu passos arrastados na direção da mesma porta de sempre, hoje mais vermelha que o costume.
O corredor era como uma artéria pulsante, vívida, sangüínea, vital. Perante si viu o menino, aquele mesmo de sempre. Sua pele alva estava coberta de chagas, arranhões, hematomas, cortes, pequenos riachos de sangue seco. Sua boca estava particularmente monstruosa, inchada e dormente, dando uma feição de alucinação febril ao seu rosto.
Sua expressão era distante, ao contrário do costume. Falou, uma fala escarlate, sangüínea: “Preciso...”, balbuciou, deixando sair da boca machucada um spray de sangue úmido e quente com uma tossida rouca e um assobio débil da garganta. Não conseguiu terminar a frase, mas estava óbvio que precisava entrar.
Fechou a porta atrás dos dois e viu o garoto sentado no chão em posição fetal, os braços arranhados abraçando as pernas, seus joelhos à mostra. Talvez balançasse para frente e para trás, mas podia muito bem ter sido a pulsação orgânica e rubra da noite.
“Os vizinhos...”, deixou sua garganta dar um assobio desesperado, “não me deixaram ficar lá”. Não sabia o que isso queria dizer, mas era evidente que não podia ficar com seus pais. Algo devia ter acontecido. Murmurou qualquer coisa incompreensível, um murmúrio agoniado e primitivo de dor.
“Vou pegar remédio para você”, disse. Não sabia por onde começar. No armário do banheiro todos pareciam pouco demais. Todos os rótulos eram vermelhos, laranja, coral, as letras eram embaçadas e se misturavam num borrão fosco de sangue e angústia. Pegou todos os remédios e os jogou no chão próximo ao menino, que formava um rastro vermelho do balanço demente.
Não sabia o que fazer, não sabia. “Passa pra mim”, ele roncou, escarrando um borrifo vermelho e aguado no chão. Agachou-se próximo ao menino e pegou os remédios, um por um, para aplicá-los à pele dele, outrora alva e imaculada.
Ele ficou nu com suspiros coagulados de uma dor pesada, e ele aplicou todos os líquidos estranhos às feridas latejantes do garoto. Ele chorava e berrava tanto que parecia que fez sua garganta sangrar, tamanha era dor. Passou os remédios e o menino simplesmente jazeu no chão, um corpo ofegante de olhos vítreos e sem vida, de imobilidade ocasionalmente interrompida por um espasmo insano.
Teve vontade de lambê-lo, de saborear as feridas, de sentir em suas papilas o gosto ferroso do sangue, do sangue do sangue do sangue, queria limpá-lo, queria lavá-lo, queria possuí-lo. Era algo de sangüíneo. Sentia-se um monstro suando um fetiche cruento e nojento. Mas era tudo muito duvidoso, e muito vermelho muito sangüíneo muito machucado.
Observava-o desmaiado sobre o chão frio que maltratava as feridas vivas do garoto; deixou-se levar pelo raciocínio e tomou um banho, tomou um uísque. Acalmou-se. Nesse pesadelo de sangue e anti-séptico, era vermelho e era o sangue.
