Desafio dos Títulos -Encerrado
domingo, 28 de dezembro de 2008
Esquina
Como sou hipócrita, falso, consumista, egoísta, materialista, despreocupado, distraído, ocupado, sem tempo.
sábado, 27 de dezembro de 2008
Do fundo do baú ou Relíquia ou Devaneio ou Família ou, simplesmente, "II"
Hoje, num estado levemente alcoolizado, parei por alguns segundos e refleti sobre meu primo. Na verdade, refleti sobre a curiosa maneira na qual ele se alienava dos acontecimentos do mundo.
Talvez por morar mais longe ou por puro capricho, ele tinha uma maneira peculiar de se ausentar de todo e qualquer problema referente ao mundo.
Nunca o vira falar sobre a AIDS na África ou o aquecimento global. Suas histórias mexiam com minhas emoções - fossem elas as tristezas, as alegrias ou as surpresas - mexiam com minhas emoções de um modo estranho, como se ele nunca tivesse sabido de tais problemas ou ainda que estes nunca tivessem acontecido antes.
Ele falava sobre coisas julgadas na maioria das vezes banais, como as músicas que ele compunha, as aventuras de mais um dia na roça - ele mora numa região meio interiorana do Rio de Janeiro, mesmo que estude Matemática no Centro - e todas essas histórias me cativavam como se eu não tivesse mais nada a me preocupar, apenas seus quase-problemas.
O curioso de tudo é que sempre cobro das pessoas uma certa carga de problemas, mas dele, justamente dele, nunca me passara pela cabeça perguntar o que isso tudo tinha a ver com a problemática atual do mundo.
Não que ele fosse bom contador de histórias - aliás ele o fazia de uma maneira tão ruim quanto a minha: cheia de interrupções, mas estas eram de uma alienação tão curiosa que me deixavam à parte de todo aquecimento global, toda fome, tudo.
Ele compunha músicas - sim, meu primo é o que se pode dizer de um poeta....uma pessoa poética talvez...com uma poesia ímpar de alguém que não se preocupa com o que acontece com o mundo atual, mas não causa diferenças gritantes na não-preocuoação sobre um pé-de-cana, ou sobre alguma coisa em inglês furado,ou ainda sobre amor e falta (falta essa de preocupação para com o amor?)
Lembro de um trecho de uma música que dizia alguma coisa sobre "cantar uma música sobre você num bar vazio e, ao abrir os olhos, não haver mais ninguém ouvindo".
Enfim, meu primo é uma pessoa curiosamente peculiar.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
[Desafio] Cancelado Devido a Chuva
Construíra uma vida, é bem verdade, e uma boa. No entanto, nunca vivera. Escolhera um marido que não se importava com suas ausências mentais, seus filhos achavam que era só seu jeito de ser. Depois de tanto tempo, ninguém se importava mais em interrogá-la, ninguém se lembrava mais como ela era e suas distâncias passaram por envelhecimento. Quisera ela ter se tornado tão sábia quanto a consideravam nesses momentos. Pouco era necessário para desencadear seus devaneios. Por vezes, o barulho do vento era suficiente.
Questionara-se, também, há tempos, se não estava enlouquecendo. Concluíra que não. Se enlouquecesse, o estado senil impediria a saudade de sufocá-la nesses momentos. Além do mais, não tinha status para tal. Não fora tão culta ou tão altruísta que lhe garantisse o direito.
Perdera-se em devaneios mais uma vez. O tempo estava passando e, se queria alcançá-lo ainda nos portões da cadeia, deveria sair agora. Olhou pela janela e percebeu que o motivo de seu retorno à realidade fora a chuva torrencial que caíra sem aviso. Sempre havia chuva nessa época do ano. Fora nessa mesma estação em que se conheceram. Ela o viu pela primeira vez saindo de seu escritório na praia do Flamengo...
Pronto. Voltara a seus devaneios.
Quanto ao momento em que sua vida seria resolvida? Cancelado. Até a próxima lucidez.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Quatro parágrafos para te salvaguardar
Escondi as provas num caminho isolado, numa cabana abandonada na floresta; lá onde as sombras desenham contornos na terra. Procura na escrivaninha mofada, uma das suas gavetas conterá tudo o que ninguém pode ver.
Não te preocupes: guardo comigo uma foto tua antiga, em que me olhas um sorriso descabelado e desconfiado. Está na minha carteira, aquela velha de couro falso; o tom sépia do teu rosto vai me fazer esquecer a fuga.
Pensa bem, meu amor, nosso romance será escrito pelo telefone, entre orações bêbadas e arrependimentos, e descuidos, e confissões chorosas. Construiremos, pensa bem, um legado de saudade e crime, a nossa história.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
No elevador
Edward Meener encontrava-se num elevador fechado, levemente escurecido pela falta de uma lâmpada e ao lado de um morto.
Havia um morto ao lado de Edward, em cima de uma maca, sem razões lógicas e plausíveis.
A situação era absurda como um sonho, pois ninguém deixaria um morto numa maca subindo e descendo os elevadores do único prédio residencial da Tina Ulson St.
Mas era real.
Depois, houve a dúvida.
Há quanto tempo estaria ali. Quem era.
Nunca vira o indivíduo no prédio - não que fosse dos vizinhos mais sociáveis.
Porque ali. Porque não tomei as escadas.
A resposta desta, entretanto, era simples: eram quarenta e cinco andares. Ir de escada era simplesmente exaustivo demais.
Pois então, que aceitasse o castigo divino à sua preguiça: andar no elevador ao lado do morto.
Estaria mesmo morto.
Então, houve o medo.
O medo não precisa de explicação, porque todo o mundo teme a morte.
E houve a espera.
Quarenta e cinco andares que não passavam nem sob toda a reza que Edward Meener fazia. É claro que era da boca para fora, por que ele nunca acreditara nessas coisas de deuses.
E houve a esperança.
Quando o elevador se aproximava do andar, ouviu-se um baque surdo e ele parou.
Que piada: entre dois andares, dentre eles aquele no qual Edward sairia do elevador rumo à sua liberdade.
Então houve o terror, que vem do medo, que não precisa de explicação, porque todo o mundo teme a morte.
E mais espera houve, mas dessa vez ela não vinha acompanhada de reza. Era acompanhada de um Edward encolhido no canto do elevador, de modo que não mais conseguia ver o morto em cima de sua maca.
O morto causava um pânico tremendo nele, mesmo que não movesse um músculo.
E houve a esperança, mais uma vez.
O elevador voltou a funcionar, ao mesmo tempo em que se ouviu uma voz amigável e feminina dizendo que houve uma rápida queda de energia e que tudo estava sob controle.
Enfim, houve o alívio, porque Edward saiu do elevador (incrivelmente suado) e tomou o rumo que tomaria normalmente, ainda um pouco abalado e sem nenhum arranhão, até porque não havia a possibilidade.
Porque o morto continuava sem mover um músculo.
sábado, 13 de dezembro de 2008
[Desafio] A Máquina do Mundo
Inclemente, sem dó, enfiou a faca.
Lâmina de pureza, era uma estaca
escarlate no corpo moribundo.
Parou e viu a nascente de morte,
Que num riacho se desenvolvia.
Engrenagens de inércia e mais-valia
Escorriam da chaga fina, o corte.
Desceu as ancas, formou-se num lago.
Viu tudo, entendeu tudo! Era o norte!
"É o saber e a verdade que trago!"
Larga a faca e sai louco, vagabundo.
Sirene, dinheiro, mentira, morte:
Ia encontrar a Máquina do Mundo.
Meu desafio:
"Cancelado devido a chuva".
O pornógrafo
Nas ruas elétricas de uma megalópole abandonada corria o pornógrafo por debaixo de chuva forte atrás do ônibus respirando fumaça e ondas de rádio no concreto plúmbeo industrial molhado de lama cinza, atrás da virtude roubada dos velhos tempos dos sonhos siderais de uma sociedade branca espacial, sua calça jeans suja da velha água roedora dos bueiros malcheirosos, suas meias de algodão processado ensopadas num incômodo carbônico.
Corre, pornógrafo, você chega lá.
O condutor se comiserou e parou o veículo metálico com um ganido desproporcional de efeito cinematográfico e o pornógrafo entrou no ônibus com um falso sorriso de alívio e arrogância, despejou sobre os ásperos calos do trocador o dinheiro com cheiro forte de níquel velho e forçou seu corpo oncológico a girar a roleta sólida com um ruído estridente de passagem para se sentar num banco rasgado com pixações profanas perto de uma janela quebrada com um puxador que parecia cortante.
Espera, pornógrafo, você chega lá.
Foi assolado por pingos finos e gelados de uma chuva corrosiva durante toda a viagem até chegar ao ponto de ônibus de sua casa e desceu para acelerar o passo fatigado da rotina de nojo até o portão do prédio, tateou pela chave de alumínio no bolso do sobretudo e abriu a porta com triunfo prosaico de desconcerto para ver o apartamento adstrito empoeirado e mal iluminado com um único foco de luz amarela débil e vacilante como o instinto e a moral.
Arruma, pornógrafo, você chega lá.
Tomou coragem e pôs-se a organizar a mobília e os objetos e a tirar o mofo parasítico de sua morada suja durante toda a madrugada enquanto trovões reverberavam zombarias e relâmpagos crebros discotecavam num pulso narcótico e limpava, esfregava, cuspia e suava com a obstinação quase demoníaca de um obsessivo recém-descoberto, tudo para que pela janela entrasse a manhã sadia e arrumada e as buzinas descompassadas da impaciência do dinheiro.
Descansa, pornógrafo, você chega lá.
O corpo envelhecido exausto se atirou no sofá há pouco ajeitado e deixou-se respirar da atmosfera metropolitana poluída e pervertida de desapego e egoísmo num desvario gosmento de roncos e câncer enquanto um assobio lúgubre escapava e se recolhia dentro de seus pulmões tomados por velhas cinzas contumazes de uma juventude ébria em excessos e vaidades e loucuras mórbidas.
Dorme, pornógrafo, você chega lá.
Enterrado na terra viciada pelo esforço exacerbado de demência moribunda sua carne acre era digerida pelos vermes hiantes que salivavam ácidos acerbos nos esfumaçados globos hialinos de devassidão e de doença que em breve seriam litocarpos infames a tropeçar para dentro de um oblívio edáfico de podridão das obsecrações obliteradas dos perdidos e dos fracos das cidades de pornógrafos.
