Desafio da Última Linha

Acompanhe aqui as sugestões de cada um:

Desafio dos Neologismos - Encerrado
Desafio dos Títulos -Encerrado


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Ruído

Estranha-se a compreensão, hoje; noutros tempos, já foi a compreensão dada por garantida - hoje, é a incompreensão pressuposta; via de regra, não nos entendemos. A palavra, é ela ineficaz, afinal, ou somos nós? Ou dá na mesma? Em que medida podemos medir a incompreensão? Sei que as emoções são ininteligíveis, por experiência não-empírica; mas até que ponto sentimos a ineficácia da expressão das emoções mais facilmente? Talvez nos sintamos tão próximos a elas que elas se transformam em sua expressão, um erro de representação que só pode gerar insatisfação; outros assuntos são menos próximos ao nosso interior, e por isso sua incompreensão é dada como ruído, e não ineficácia.

Mas o ruído existe, ou é apenas algo que inventamos para justificar uma ineficácia tão constante e regular que nos emudeceria se não a ignorássemos ou trocássemos o nome? Existe medida para a ineficácia da expressão? Existiria um limite entre a ineficácia aceitável e a inaceitável? Ele está nas pessoas, que falam e ouvem e esperam enunciados? Está no meio - a linguagem em si, seria ela imprecisa por natureza? Está na mensagem?, ou seja, seria a imprecisão da linguagem não um atributo inerente a ela, mas fruto de nossa incompetência ao empregá-la? Ou onde? Onde está o limite? É culpa dos gnomos?

Essa é a minha busca na literatura; os escritores estou a procurar esse limite entre o ininteligível e o inteligível... mas é um espaço inesgotável. Preciso da medida, de números, de fórmulas. Alguém as tem? ... Alguém as busca, ao menos?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Noite de réveillon

Todos me esperam para a festa. Notarão minha demora, e ficarão cada vez mais preocupados, mas temo não poder avisá-los. Acharão que fui sequestrado, que me perdi pelo caminho, que bati com meu carro, que os troquei, que os esqueci. A última coisa que lhes passará pela cabeça, se chegar a passar antes que estejam bêbados, é que estou preso num elevador. Estou numa espécie de não caminho, nem no começo, nem no fim, muito menos no meio. Estou, sim, entre o décimo primeiro e o décimo segundo andares, isolado entre paredes, dentro de uma caixa de metal.
É inútil gritar e bater. A música alta que vem do andar imediatamente superior impede qualquer um dos vizinhos de me ouvir. Como são dois os elevadores do edifício em que moro, é certo que ninguém notará a falta daquele em que estou: usarão o disponível se necessário. Não quero amaldiçoá-los por isso. Deixa, que eles têm direito à festa – mesmo que eu também tenha direito ao grito.
Meu celular, negligentemente sem bateria. deus, às vezes, parece pôr-me em situações ridículas. Eis-me, portanto, aqui: incomunicável e preso. Penso que até os encarcerados das prisões gozam de mais comunicabilidade do que eu. Rio, mesmo sem achar muita graça do meu pensamento, menos ainda do meu estado.
Sento-me no chão, já sem muitas esperanças. Alguém me disse, uma vez, que o fim do ano é um momento propício de reflexão, de autoconsciência e de conversa interior. Esse alguém, suponho, nunca percebeu os efeitos benéficos de uma prisão como a que estou. Em companhia das paredes de metal e da porta aberta, que leva a uma quarta parede, de pedra, não posso senão imaginar e conversar comigo mesmo. Sei que as paredes têm ouvidos, mas prefiro dirigir-me a mim, ao menos por enquanto.
Saí atrasado para a festa para que fui convidado. Eram onze e meia, mas tinha a consciência de que o trânsito estaria limpo e, portanto, não demoraria a chegar. Ficar preso num elevador, na noite de réveillon, definitivamente não fazia parte dos planos. Há perigos que passam tão rápido por nós, que ignoramos sua existência. Achamos que, na iminência da morte, haverá um sinal divino, as trombetas dos sete anjos tocarão, e saberemos o momento exato do fim, de modo que, poderosos e sóis, poderemos escapar dela.
Não houve trombetas para mim: apenas uma música de gosto um tanto quanto vulgar, e um elevador que, de inofensivo, tornou-se meu túmulo.
Sei que pareço dramático. Não acredito que vá, de fato, morrer. O fim do ano é que me deixa um pouco sensível. Penso que o clima de mil-abraços do Natal e do Réveillon seja a causa disso. É como uma festa sem música, em que todos procuram parecer mais ou menos iguais. Embarco no fingimento.
Sei que não chegarei a tempo para a festa dos meus. Sentirei falta de seus abraços na passagem do ano. Não darei o primeiro beijo, não dançarei a primeira música. Menos ainda darei o primeiro grito, aquele grito libertador que expurga do corpo todos os doze meses de peso.
Mas ao meu salvador, sim, a ele serei muito grato. Sempre tive algo com a gratidão, essa espécie de humildade. Tendo-o em mente, tenho vontade do grito, como se, por imaginá-lo, ele estivesse nesse preciso momento com os ouvidos colados à porta do elevador social.
Alguém da festa abaixa o som, talvez esse meu redentor. Levanto-me de imediato, gritando e batendo nas paredes. Uma voz berra. Faltam cinco minutos!
A música, contudo, não retorna às alturas. Espero que tenham me ouvido. Continuo batendo e gritando.
Gritam-me de volta. Enfim, a chance de sair desse claustro! Mais vozes se juntam: estão curiosos pela minha má sorte, não tenho dúvidas. Gritam, agora, que vão buscar ajuda, e me tranquilizo. Estou feliz. Sento mais uma vez no chão, agora certo de que a liberdade não demora.
Nenhum dos meus salvadores sabe quem eu sou. Tampouco eu sei quem eles são. Decido a começar as resoluções para o ano que se abre. A primeira delas é evidente: conhecer os vizinhos, talvez manter com eles uma relação para além do bom dia, tarde, noite.
Meio alheios a mim, os vizinhos da festa se animam entre eles, mais uma vez: falta um minuto para começarmos um novo ano. Minha nova dúvida: será um ano de prisão ou de liberdade? Conseguirei sair dali em menos de um minuto?
Ouço um estalo. Temo serem fogos de artifício, mas senti-o por quase todo meu corpo. A menos que os tenham soltado dentro do poço, estou certo de que o barulho não foi pirotécnico. Novo estalo, seguido de uma agitação. O elevador estremece, e junto com ele as pessoas. Seus gritos, contudo, são de felicidade. Não ouviram os ruídos, ignoram meu perigo.
Começam a contagem. Já não tenho mais esperanças de começar o ano do lado de fora. Ao menos terei uma história para contar, penso, quando chegar junto aos meus. Vou abraçá-los três vezes mais forte, como se para compensar o erro de não ter-lhes visto nesse momento tão simbólico.
Dez. Novo estalo. Nove. Outro estalo. Oito. Levanto-me em agonia. Uma forte agitação.
O elevador despenca. Meu grito se mistura aos dos vizinhos, que já parecem não se incomodar com minha situação. Meu grito, sim, que será o primeiro do ano, mas também o último, e também nenhum. Uma árvore não faz barulho caindo numa floresta de gritos?
Eu, que ficara preso não apenas entre dois andares, mas na transição entre dois anos, entre duas festas, entre céu e Inferno. O elevador vai cada vez mais rápido em direção a este. Três, dois, um.
Morre o ano. Passo eu. Feliz

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O noitifalante

A coisa começa assim: com uma palavrinha só. De repente, minha filha, ele desata a discursar de presidente. Comigo foi assim mesmo, você precisa é de ouvir.

A gente sempre dormiu agarradinho, mesmo depois de tanto tempo de casados. Eu me pegava até dando a mão para ele no meio da noite, que era para ver se ele não saia flutuando, sabe? Até o dia em que eu, sem querer, acordei. E ouvi, menina: ouvi ele dizendo pra alguém, sozinho, que me amava. Eu me derreti. Ele ainda me amava! Olha, que encontrar homem que te ame até dormindo não é artigo que se veja! Ele tava sonhando comigo, só podia era de ser.

Na noite seguinte, a mesma coisa. Engraçado que era na mesma hora. Eu nem parei para reparar, não, é que olhei assim, e reparei. Três horas, e ele disse de novo que me amava. Eu rederreti.

O corpo viciou, menina. Eu despertava todo dia só pra ouvir a rádio meu amor dizer o que dizia. A música era a mesma, mas eu é que não era. Cada dia era tão mais bonito de ouvir aquilo vindo daquele corpo sonolento!

Assim a gente foi se indo, ele me amando em palavras de noite, eu derretida o resto do dia.

Eu fazia questão de nem contar pra ele. Ficava quietinha. E se ele se policiasse? Imagina, que eu ia destruir a minha alegria noturna de cada dia? Me bastava ouvir.
Se existe voyeur, pra vista, depois eu procuro a palavra que serve pro ouvido.

Ele nem estranhava a minha alegria. Às vezes, menina, me dava uma coisa com isso. Eu danava a achar que ele sabia, que ele fazia só pra resgatar o nosso amor. Mas se mentia, mentia tão bem que eu acreditava – e eu queria acreditar, então casamos, e eu esquecia aquela coisa que me dava.

Às vezes o amor crescia. Ele dizia que me amava, e muito. Dizia que me amava, e pra sempre. Dizia que me amava, e muito e pra sempre. Teve um dia, menina, que ele recitou até poesia pra mim, mas eu nem entendi.

Ele passou a mudar de assunto, e a falar cada vez mais. E eu fui murchando de pouquinho em pouquinho. Eu acordava era na esperança de ele dizer A, ele vinha e dizia Bê e Cê!

Eu quis gritar com ele, mas não.

É claro que meu bico ficava do tamanho da lua, mas fui mais esperta. Era melhor ficar calada, que, naquela inconsciência toda, ele podia soltar uma, e eu pegava. Se ele estivesse me traindo, com certeza ia se trair também.

Enquanto isso, ele nem aí, menina.

A coisa toda continuou. Sete noites seguidas, ele falando de tudo, menos do amor que antes me tinha. E se ele já não gostasse mais de mim?

Até que um dia ele quis me largar. Eu já sabia, eu já previa, já preouvia. Perguntei se ele tinha uma amante, já quase adiantando aquilo que eu queria ouvir. Ele ficou foi uma arara, me chamou de todos os nomes. Disse que acreditava em muita coisa, só não no meu cinismo.

Encuquei, menina. Resolvi perguntar, agora já sem adiantar o que viria, o que tinha acontecido. Virei cínica mais cinco vezes antes de saber: quem tinha um amante era eu. Fiquei injuriada! Como uma coisa dessas? Eu que sempre fui tão franca. Eu, que só escondia dele o que ele mesmo fazia e nem lhe causava mal.

Ele saiu, eu aflita. Voltou com um gravador na mão. Botou pra tocar: no que eu ouço eu mesma falando o que ele me revelou há pouco tempo.

E aí eu entendi, menina, entendi que eu também falei dormindo.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Em seu lugar

Mortos os pais da casa hereditária
Nele surgiram ganas de descarte
E arrumação. Começa por um quarto
Que por raro ter sido destrancado
Ainda era bem iluminado,
Fora alguns cantos. Ao centro do quarto,
Gavetas que contêm cartas de amor

As lê rapidamente, e então as rasga,
E as joga pelo chão, exceto uma
Com um poema que ele não entende.
Esta ele põe de volta na gaveta

Um relógio de pêndulo atrapalha
A passagem, e é posto à parede,
E já não tique taca a mais ninguém.

Numa das caixas que há pelo aposento
Escreveram “não abra”. Ele obedece.

Há papéis pelo chão, e há insetos.
Documentos, baratas, comprovantes,
Certidões e formigas: vão ao lixo.

Abre um baú, e nele não há nada.

Um velho álbum de fotos empoeirado
E amarelo de tempo causa espirros
E cai dele, do homem, uma lágrima.

E ao fim desse trabalho que, decerto,
Dura mais do que contam estes versos,
Façamos o balanço do que ganha:
Sai um pouco mais leve pelo espaço
E muito mais pesado de lembranças.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Bichinho

Pousou um bichinho desgraçado no meio da minha testa.

Meu primeiro impulso é o de esmagá-lo com toda a rapidez e fúria de alguém cujo sono é interrompido aos primeiros raios da manhã. Logo me recordo de que não existe essa possibilidade: tenho braços, pernas e troncos imobilizados devido a um acidente pouco importante.

Balanço o quanto posso a cabeça – muito pouco, na verdade – e nada: ainda sinto suas patinhas em mim.

Se ao menos soubesse com que espécie estou lidando! Mas não há espelhos ao alcance da vista, de modo que só me resta confiar em meu tato e minhas notáveis habilidades de reconhecimento biológico com a fronte.

Ora, sinto-lhe pequeno, o bichinho, logo tenho a inútil certeza de que não se trata de uma águia, muito menos de um dragão. Sei também que chegou em mim pelo ar: estão, pois, doravante, descartados todos os peixes, os cães e as serpentes. As baratas não estão descartadas (rezo baixinho para que não seja de fato barata. Barata é tristeza).

A enfermeira do quarto dorme discretamente no corredor. Vejo-a pela janela de vidro, de costas e de cabeça pendente. Eu deveria era repreendê-la (as patinhas fazem cócegas devagar – o bicho se move sem sair do lugar), afinal podia não se tratar de um caso de bicho-na-testa: um meteoro, uma labareda. Deveria, sim, gritar, fazê-la sentir-se culpada por cochilar em serviço e despertá-la com um susto. Mas não grito: o grito, deixo-o para quando precisar de verdade. E, aliás, essa coisinha em mim já nem me incomoda – exceto talvez pelo fato de ainda não saber sua origem.

E, depois, é divertido brincar de imaginar-me ornamentado com uma borboletinha azul e roxa. Ou mesmo ter me tornado altar para um louva-a-deus qualquer.

Altar, não. Sai, louva-a-deus. Tento assoprar na direção do ser, mas sou impedido – traído! – pela minha própria anatomia nasal. Meu melhor resultado é sentir as patitas que me acariciam de leve. Abelha, joaninha ou besouro, até que é um negócio gentil.

De esguelha, consigo ver a enfermeira, que acorda. Como para se redimir do erro, entra de pronto no meu quarto sem dizer uma só palavra. Esfregando delicadamente seus olhos, pergunta bondiosamente: precisa de alguma coisa.

Respondo-lhe: faz favor de tirar isso de mim, que me pinica.

Ela retruca: que isso? Não tem nada aí, isso deve ser ideia da sua cabeça.

E a ideia parou de coçar.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

[Desafio] Doroteia

No meigo olhar da loura Doroteia.
Aqui me encontro, preso e refletido
enquanto a beijo. A atitude é feia
- abrir os olhos – mas é divertido
mirá-la assim a fundo, tão de perto.
E ela é linda, porra: não tô certo?

Não interessa mais: só quero o beijo,
E sentir o seu corpo que em mim roça.
Quando paramos, arrisco um gracejo:
“Você tem costas largas pr’uma moça”
Ela se ri, e me diz: “Preocupa não:
eu era campeã de natação.”

Além do nome, agora disso eu sei.
Vou lhe explicar como se sucedeu:
Ficamos rápido, nem perguntei
“Qual é teu signo? Que time é o teu?”
Afora o nome, não perguntei nada.
Nem todas são assim: descomplicadas.

Agora, conversamos sobre a vida,
e, no momento, falamos de tudo:
Sexo, carreira, futebol, bebida...
(“Conversamos”, nem tanto: fico mudo,
ela monologando, tão profunda.
Enquanto isso eu espio sua bunda)

Até presto atenção na ladainha
- eu não ouço com o olho: é c’os ouvidos,
mas não pense que ela é assim bobinha:
também me lança olhares atrevidos.
O olhar é meigo, e embora tão materna,
sei que mira o que eu tenho entre as pernas.

Cansado de ouvir e olhar, a agarro.
Ela se esquiva, e me agarra mais forte,
se achega e, então, pergunta: “no meu carro?”
(Meu Deus! É hoje o meu dia de sorte!)
E vamos, eu na frente e ela atrás
Mulher igual: não vejo nunca mais.

E estamos nessa esfregação que só,
mas algo aqui não é do meu costume...
Olhando bem... aquilo é um gogó?
E isso aqui embaixo, é um volume?
Agora sei porque igual nunca vi:
Caralho! Doroteia é travesti!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

[Desafio] Cárcere

Queria aproveitar tudo, muito, sempre. Mas com ela ao meu lado, não aproveitaria nada, nunca. E ela me prendia. Eu era seu. Objeto único de sua loucura, objeto pleno de sua demência. Eu ainda levo nos pulsos as marcas das algemas de ferro; nos pulsos, levo a humilhação do confinamento, da privação e da escuridão. Eu não tomava sol, nunca, minha pele estava pálida -- não, esverdeada. Ainda lembro das moscas que pousavam em mim durante o dia, e eu fazia o que podia para me debater. A sujeira, Deus, a sujeira. E a comida, se aquilo podia ser chamado de comida.
Levo nos meus olhos doloridos, agora mesmo, enquanto essa lâmpada nua me estupra, as cicatrizes da clausura. Levo nos meus ouvidos, os mesmos que agora são invadidos pelo ruído insuportável dos cliques do gravador de fita cassete, os ecos das trancas, chaves e correntes do calabouço que ela chamava de quarto. Lembro da voz doce dela. Eu ouvi tudo o que ela tinha a dizer; cada palavra, cada soluço, cada perdigoto que aterissava no meu rosto e eu não tinha mãos livres para limpar.
Eu aprendi a não pedir. Eu aprendi a ficar calado. Antigamente, eu rosnava, eu grunhia, eu rugia alto, até ficar vermelho, vomitando fúria e tripas. Ela me olhava calmamente e me dava uma porrada. E depois outra. Um dia ela até levou uma faca. Foi bom para sair da rotina. A expressão no rosto dela não mudava; um meio-sorriso, uma sobrancelha erguida, o cenho suavemente franzido; e as unhas. Enquanto ela sentava na velha cadeira e me observava, ela batia as unhas no encosto de braço, o único tique-taque que ouvi, pois lá embaixo não havia relógios. Nem janelas. Eu não sabia o que era noite e o que era dia. Uma vez eu perguntei que horas eram. Prefiro não falar do que ela fez.
Agora mesmo, enquanto minhas costas são violentadas pela almofada da poltrona, eu sinto o ar parado. Aqui fora, o ar se mexe. Lá embaixo não era como aqui fora; eu só sentia vento na hora de levar porrada na cara, ou em outros lugares. Mas o meu favorito era o ferro de queimar. Ela vinha com ele -- e nesses dias o sorriso era quase inteiro -- e me deixava listrado que nem uma zebra. Nas perguntas que você faz, as palavras que você usa são diferentes. Ela não falava assim comigo. Na verdade, ela nem falava tanto comigo, mas era a única voz que eu ouvia, e mesmo sem poder responder, era o mais próximo que tinha de uma conversa.
Isso ela nunca fez, não me pergunte por quê.
Teve uma vez que ela me deu uma comida diferente. Ela disse o que era, mas eu esqueci. Tinha um gosto bom. Pensando agora, não sei se era bom mas não era o que ela costumava servir. Às vezes, à noite, isso você não pode contar pra ela, eu falava. Eu cochichava dentro da minha cabeça, bem baixinho, pra ela não ouvir. Uma vez ela ouviu, mas não pergunta o que ela fez. Não, não foi isso. Isso ela nunca fez.
Faz uns dez anos. Em que ano estamos? É, dez anos. Eu não tinha espelho. As únicas coisas que eu via eram a parede, o chão, o teto, o meu corpo (mas nunca os meus pulsos ou meus tornozelos) e ela e os nossos brinquedos. Tudo dentro da masmorra. Ela me limpava. Não sei. Não, isso ela nunca fez.
Nunca troquei. Não sei mais que cheiro tem. Só conheço o meu cheiro e o dela. Ela cheirava sempre bem, e eu sempre mal. Mas era assim que sempre foi. Ela se sentia bem do meu lado. Vivia falando isso, que eu fazia bem pra ela. Eu não lembro como aconteceu, acho que ela simplesmente me soltou. Pode ser, mas eu não tinha movimento. Todo eu era frágil, e cambeleava sem sair do lugar, era bem patético.
Não, isso ela nunca faria.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

[Desafio] Espetáculo da literatura

Havia um motivo para contar essa história, mas, temporariamente, fugiu da mente do autor. É, portanto, por isso que o mesmo será obrigado a en...treter o senhor ou a senhora até o momento em que retornará enfim o mencionado motivo, dado que sem ele não haverá a menor possibilidade de dar prosseguimento à apresentação: é da crença do autor que o motivo da criação antecede a criatura, até mesmo no momento de sua apreciação. Sejam pacientes, mas nunca haha passivos.
É preciso, ainda, que o senhor ou a senhora controle as suas ansiedades. O motivo da referida história é de suma importância, entenda, e tão logo ele se nos chegue, desenrolar-se-á diante de seus olhos aflitos um espetáculo da literatura como nunca se viu igual.
Há que se fazer uma observação neste espaço que segue: atente, senhora ou senhor, que o autor faz uso da expressão “como nunca se viu igual”, onde poderia perfeitamente ter omitido o vocábulo “igual”. Com isso, temos que não há obras da mesma magnificência da que logo chega, mas há, sim, algumas criações parecidas, todas de menor importância, note-se.
É possível, no momento, que o leitor ou a leitora não creia no autor, especialmente quanto à qualidade da obra que virá. Trata-se de uma opinião respeitável, uma vez que já se lhe foram embora alguns preciosos segundos de sua corrida vida. Respeitável, porém não menos equivocada, há que se reparar. No entanto, pede-se que a leitora ou o leitor não abandone este humilde texto, no esforço de ser recompensado com a obra-prima da literatura brasileira, quiçá mundial – se queimados dois ou três outros livrinhos.
Se o leitor ou a leitora teve a gentil paciência de acompanhar o texto até a presente linha, devo-lhe meus sinceros parabéns. É uma imensa vergonha ter de estar tão próximo, assim, desvelado e desnudado, com o intuito de oferecer tais explicações. Trata-se de uma gentileza de tamanho tão considerável que o autor se prontifica a premiá-lo(a) com um pequeno brinde, a ser retirado na recepção. Basta que lá se chegue e procure a moça morena de olhos cor-de-mel e cabelos negros como a asa da graúna, e se lhe diga a senha – que aqui convencionaremos por “nevermore”, uma palavra aleatória que me veio à mente – que ela, a moça, já se encontra informada dos procedimentos. Dessa forma, o autor não só recompensa um ato que considera de imensa honraria, mas também ganha para si o controle do número de leitores que pularem este específico parágrafo, rumo ao final da história, ávidos não pelo desenrolar, mas pelo nó já desatado.
O autor ainda não dispõe da devida informação, mas, no entanto, uma ideia vaga do que ela representaria lhe ocorre: sabe-se que a história a ser contada tem certo teor edificante, sem no entanto incorrer no pedantismo de uma história pedagógica, ainda que
Como? Não, por favor, não me faça ter de dizer isto ao leitor ou à leitora. Fará mal para minha imagem! Sim, entendo. Já tentaram de tudo? Pois certo.
O autor acaba de receber um cochicho no ouvido – quase com certa languidez, se me permite o leitor (e não a leitora) informar – da referida moça morena. O motivo nos ligou. Disse que se encontra preso num engarrafamento – fugiu, e agora não pode voltar, veja só – e não poderá chegar a tempo do fim do texto. Ele pede desculpas pelo transtorno, mas não serão maiores do que os pedidos de perdão que eu o/a peço, leitor ou leitora. O autor e toda a equipe pedem sinceras desculpas e o/a garante que seu tempo será devolvido, basta deixar seu endereço na recepção com a moça morena, que lhes serão entregues em casa, juntamente com o regalo mencionado anteriormente.
Mais uma vez, desculpas, e tenha uma ótima vida.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

[Desafio] A Sereia

Pescador da barca bela, inda é tempo, foge dela, foge dela, ó pescador!
Pescador da barca bela, se não foges, vais com ela, vais com ela, ó pescador!
Pescador: não vás com ela, lá no fundo canta ela, canta ela, ó pescador!
Pescador: não vás com ela, se lá fores, não regressas, não regressas, pescador!

Pescador: estende a vela, puxa a vara, traz a rede, traz a rede, ó pescador!
Pescador da dor singela, deixa o peixe, retrocede, retrocede, ó pescador!
Pescador: vai à pinguela, não a ouças, te arreda, te arreda, ó pescador!
Pescador: te acautela, rema forte, canta alto, canta alto, ó pescador!

Pescador da barca bela, o que fazes?, não mergulhes, não mergulhes, pescador!
Pescador da barca bela, não te leves, não me deixes, não me deixes, pescador!
Pescador que se engambela, não te afogues, pega a corda, pega a corda, ó pescador!
Pescador sem sentinela, não te vejo, me deixaste, me deixaste, ó pescador!

domingo, 9 de janeiro de 2011

[Desafio] Conto de Fodas

Ele a levou para o seu reino, onde foram recebidos com muita alegria e viveram por muito tempo depois disso, felizes e satisfeitos. Ou assim deveria terminar a história. E assim muitos acreditam ter terminado. Mas eu vou lhes contar a verdade. Uma parte da verdade vocês já sabem: príncipe conhece donzela indefesa, salva donzela indefesa, pede donzela indefesa em casamento e a leva num cavalo branco para o reino para, um dia, torná-la rainha. Mas tem toda essa história de felicidade; sabe, eu sou um cínico. Eu não acredito nessa alegria idílica, pássaros fazendo vestidos, abóboras virando carruagens.
Eu escreveria assim: ele a levou para o seu reino, onde foram recebidos com muito desgosto, porque ela era uma plebeia tosca e sem noção, e ele parecia não ver, chamaram-na de parvenue, de nouvelle riche, de alpinista social (alguns diziam que tinha maquiavelicamente fingido o incidente com o dragão para chamar a atenção do príncipe, que já o planejava há meses). Ela se recusava a satisfazer seus pedidos na cama, e era obrigada por ele, e sempre que se mostrava descontente ele dizia: "Você esqueceu de onde vem, mulher? Sabe que eu te ponho pra fora daqui em dois segundos, sua vagabunda! As pérolas, as sedas, os rubis, tudo é de família, você sai daqui tão pobre quanto eu te encontrei!" Ela era obrigada a se calar e consentir, fazendo as vontades do esposo.
Um dia, ela me aparece grávida. A rainha, a sogra from hell da pobre donzela, dando alfinetadas a torto e a direito, dizendo-lhe que não iria admitir um neto plebeu, e que era melhor que o entregasse a ela a fim de que fosse criado pela majestade. Nove meses depois, nasceu o filho caolho da plebeia, e a rainha foi às forras. Com alguns meses de vida do pequeno, a pobre donzela rezou para que aparecesse sua fada madrinha, e lhe pediu ajuda. A fada madrinha conjurou, então, um fuzil AR15, e a pobre donzela chacinou o castelo inteiro, deu aos cadáveres uma poção mágica e criou um exército de zumbis.

E viveram felizes para sempre.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Frases para o Desafio da Última Linha


Frases da Cássia


1) "E vira o coco Sinhá!"
2) "Havia um motivo para contar essa história, mas , temporariamente, fugiu da mente do autor."
3) "Ele a levou para o seu reino, onde foram recebidos com muita alegria e viveram por muito tempo depois disso, felizes e satisfeitos."
4) "Pescador da barca bela, inda é tempo, foge dela, foge dela, ó pescador!"

Frases do Pedro

1) "Havia acabado o dinheiro que Saturno deixou pra comida."
2) "A visão permite pensar, finalmente."
3) "No meigo olhar da loura Doroteia."
4) "Contra ti me atirarei, invicta e insubmissa, ó morte."

Frases do Victor

1) "Queria aproveitar tudo, muito, sempre."
2) "Lá de baixo chegava o eco amortecido do piano e do violino"
3) "[Mas] Ele comportava um detalhe que me alegrou imensamente: estava escrito em japonês."
4) "E nas mimosas lanternas decorativas somente sobressai seu esqueleto."

Desafio da Última Linha

Bom, como o desafio dos títulos acabou faz tempo e o dos neologismos parece não ter vingado, chegou a hora de propor um novo.

Regras

1) Cada um escolhe 4 frases finais de textos literários (romances, contos, poemas, etc). As frases escolhidas devem ter diferentes níveis de dificuldade: fácil, médio, difícil e muito difícil.

2) Das 12 frases escolhidas, cada participante deve selecionar 4 frases, da seguinte maneira:
- Não pode selecionar suas próprias frases
- Deve selecionar 2 frases de cada um dos outros participantes

Ex: Eu, Cássia, seleciono 4 frases, 2 do Pedro e 2 do Victor

3) O participante então vai escrever 4 textos, um para cada frase. A frase escolhida deve ser a primeira do novo texto.
Ou seja, se a frase final escolhida for "Ele saiu." o texto novo começa com "Ele saiu."

4) Não é permitido adicionar nada antes da frase. Da mesma forma, o ponto final deve ser respeitado.

Ex: -Frase: Ele saiu.

"Ele saiu. Depois disso...."

5) A fonte das frases será revelada apenas após o fim do desafio, evitando que os participantes busquem inspiração na obra original, ou tentem continuá-la de alguma forma.


Rodada Bônus

- Cada participante escreve um texto utilizando uma das frases que ele próprio escolheu no inicio.


E o desafio começa...JÁ!

p.s.: Alguma sugestão de nome pro desafio, meninos?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Escrevi uma poesia Esqueci-me, no entanto, de podá-la Ei-la aqui em prosa e derramamento

domingo, 10 de outubro de 2010

Naquela noite, ouvindo músicas tristes, ela pensava na vida pelo que seria a tri-milionésima vez. O tom dos pensamentos era o mesmo da trilha sonora, e ela se viu lembrando das tantas coisas que não completou, que não viveu, que não sentiu.
O ritmo e o tempo da canção cresciam nela e ela sentiu o coração apertar ao mesmo tempo em que sua garganta procurou pronunciar as palavras e seus olhos desejaram uma lágrima que não vinha. E que não viria, pois não era a primeira e nem a segunda, mas sim a milionésima vez que aquilo lhe ocorria e o final era sempre o mesmo.

Ela desolada, o olhar fixo e perdido, a expressão melancólica e o pranto que não vinha.

E como mil vezes antes pensou que era daquela forma que seria, que não dava para fugir daquele meio que se meteu. Mas resolveu, como outras 350 vezes, que iria mudar, que cada passo seria uma mudança, que cada gesto seria em direção a uma nova vida. E sorriu. Um sorriso que não era forte, mas que tinha uma determinação e um brilho cálido e pálido, e que seria aquilo que a faria dormir nessa noite.

Sorriu de novo e esfregou as pálpebras. Repetiu a música. No peito o coração ainda um pouco apertado, nos olhos um resto de desejo de chorar, mas por dentro um calor renovado que a acalmava e que carregaria até a manhã. Ou, talvez, pra sempre.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O herege e o pio

"Na própria bíblia é dito que a bíblia é o livro sagrado", retrucou o pio, encurralado.

"Naturalmente. Seria uma puta estupidez se quem escreveu a bíblia não tivesse posto lá que a bíblia é sagrada. Não diz em nenhum outro lugar".

"Como assim 'quem escreveu a bíblia'? A bíblia não foi escrita por uma pessoa, foi escrita por Deus".

"E qual caneta Deus usou? E que tipo de papel ele usou?"

"Ele é Deus, não precisa de papel e caneta. Aquela é palavra de Deus, é o que eu quis dizer".

"Qual palavra?" O herege sorriu. "Você sabe que Jesus falava aramaico, o Antigo Testamento foi escrito em hebraico, o novo testamento em grego, e depois foi tudo traduzido junto pro grego, e depois pro latim, e depois pro galaico-português, e depois pro português moderno e depois ainda adaptado pro português brasileiro? Qual dessas línguas falava Deus?"

"Todas"

"Deus era um poliglota?"

"Um o quê?"

I rest my case.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

1. O mago (Le Bateleur)

Apenas a aparência do homem que chegava à cidadela aquela noite já seria suficiente para justificar a movimentação que lá haveria por tanto tempo.

Destoava completamente de qualquer habitante; a começar pelos cabelos louros que cascateavam do enorme chapelão, cabelos que em nada se assemelhavam aos tufos negros e quase imóveis da cabeça dos cidadãos, salvo talvez pela sua composição química, isso se admitirmos, frente a tanta diferença, ser o homem da mesma espécie dos que o recebiam – com riso, espanto ou ambos.

As roupas de cores fortes que vestia também eram de grande estranhamento e destaque se postas ao lado da cinzez das mantas e capuzes usuais da região.

Foi sem se incomodar com os comentários, fofoquetas e burburinhos que ele se instalou numa hospedaria qualquer. Não dormiu, não era desses: só se permitiu descansar da viagem que fizera.

Cedo, pouco depois de iniciar o dia, partiu com sua bagagem (duas grandes e pesadas malas de mão) para o mercado aberto da cidadela.

Lá, de uma mala, não tirou mais do que alguns pedaços de madeira, com os quais improvisou uma mesa, sobre a qual pôs uma das malas, da qual tirou uma sineta, a
qual tocou aos quatro cantos, de modo a atrair a atenção para si. Mais ainda.

E já se formava uma discreta plateia (sim, discreta porque o que gritava em cores era ele), ávida para saber o que trazia tão distinto jovem.

Então, ele tirou da mala sobre a mesa um globo azul, que segurou por meio de um fio.

Mostrou-o com certo mistério à multidão. Quando todos já não podiam se conter de curiosidade, o homem deu um pequeno tapa no objeto, de modo que este se pôs a girar.

À medida que girava, sua superfície se transformava. Do azul, surgia uma tímida mancha verde, que aos poucos se expandia e, ao estar já enorme, se rompeu. E as manchas verdes iam lentamente se tornando acinzentadas, umas mais do que as outras.

Algumas manchas, as do topo e do fundo, de verdes, faziam-se brancas.

O público fitava maravilhado a criação do homem. Se era mágico o espetáculo que ele trazia, era ainda mais mágico ver o olhar de todos, atentos.

E, de vez em quando, ouviam-se alguns estalos vindos da invenção, que tomavam as pessoas de surpresa – e de um certo temor.

Luzes saíam do cinza. Do azul se fazia o preto. E o espetáculo de cor, luz e secos sons era de acelerar o coração.

Foi quando, com um gesto rápido com a mão livre, o homem pediu para que as pessoas se afastassem. Obedeceram, mas a tensão já estava formada: e agora? O que é que essa máquina vai fazer?

O globo foi se tornando arroxeado por completo. Uniformizou-se, como se uma névoa se apoderasse de sua superfície. E a névoa passou a trocar de cor de forma rápida e constante. Verde, vermelho, amarelo, roxo, cinza, preto, azul, branco, verde de novo, roxo de novo, rosa, vermelho, vermelho, vermelho, vermelho e

Explosão. O globo irrompeu num alto estalido, culminando numa espantosa apresentação pirotécnica, recebida com aplausos calorosos que se recuperavam do susto.

Não é preciso dizer que a mercadoria daquele homem foi um sucesso e que logo após já havia dezenas de pessoas – inclusive mercadores locais – a se estapear para comprar um exemplar para si.

O estoque, que não era extenso, não durou muito, e o homem partiu, sorrindo, sob uma chuva de aplausos e gritos entusiasmados (em especial daqueles que conseguiram adquirir o joguete).

Como era de se esperar, os globos vendidos logo desapareceram, mas perduraria para sempre, naquela cidadezinha, a lembrança daquele homem tão esquisito e do que ali havia começado.

domingo, 11 de julho de 2010

Kieran

Não foi sem demora que Kieran descobriu seus poderes. Tinha a capacidade de controlar o clima. Na verdade, não se pode dizer que tinha pleno domínio sobre eles: não era o caso de, em todas as vezes, o vermos pedir simplesmente "quero que neve" para que isso ocorresse. O fato era que muito do que acontecia em termos de mudança climática repentina era completamente alheio à sua vontade - mas ele não deixava de ser o culpado.

Mesmo antes de ter noção do que era capaz de fazer, já era de espantar a coincidência das vezes em que se machucava, e desatava em choro, e o tempo que se fechava em nublado, nos casos de pouco choro, ou na chuva torrencial, da vez em que quebrou um braço.

Foi da primeira vez em que ficou de castigo, sem poder brincar com seus amigos, que se registrou a segunda menor temperatura do verão da cidade em que morava. A mais cruel foi no dia do falecimento de sua babá.

Também não foi por acaso que, no início de sua adolescência, a cidade teve sua pior crise de chuvas, por dias ininterruptos: tudo por conta do humor nada constante de Kieran.

Kieran fez enormes proveitos de seu poder em causa própria.

Algum tempo depois de tê-lo descoberto, e apesar dos esforços empregados para escondê-lo, seus amigos mais próximos, bem como sua família, obviamente, se aperceberam do fato, e também, secretamente, aproveitaram-se.

Convidar Kieran para qualquer festejo ao ar livre era uma grande loteria: se por um lado havia a chance de termos um belo dia de sol se o rapaz pudesse ir à festa, havia sempre o risco de que ele se entristecesse, se fosse obrigado a ficar em casa, e então lá viria uma garoa fina capaz de arruinar os planos do dia. Ai dos festejantes se Kieran descobrisse que não tinha sido convidado para alguma coisa.

Houve um caso de chover um dia inteiro, o que seria normal, não fosse ter chovido sobre uma única casa.

Os problemas começaram quando ele percebeu que tinha se apaixonado.

De início, não houve grandes alterações no clima, assim como não houve grandes alterações em si. Mas na medida em que se via cada vez mais amando, fazia brilhar um forte sol quando estava com seu amor. E em suas ausências, chuva e mais chuva.

E então, começaram a namorar, fato esse marcado por um evento climático curioso: armaram-se nuvens pesadas e o céu começou a mandar corações sobre a terra. O parece romântico, assim, contado a seco, na verdade se revela um episódio dos mais asquerosos. Não eram corações vermelhinhos e desenhados, dos que se vêem nas representações mais fofinhas. Eram corações reais, de vários tamanhos e de várias espécies, pingantes de sangue fortemente escarlate, que se espatifavam pelo chão, manchando a cidade de amor e nojo. Mais nojo que amor, evidentemente.

Kieran, é claro, percebeu de imediato sua culpa no evento. E sendo o único – ou o mais rápido - a relacionar seu estado emocional ao problema, em meio ao horror da chuva de corações, ao menos teve tempo de rir do acerto da representação humana, em que o órgão era associado ao afeto. Podia ser pior e mais libidinoso, mas não foi o caso.

A chuva seria comentada para o resto da história, sem explicação cabível que pudesse dar conta do que raios havia acontecido, mas a história não seria um período realmente longo.

Kieran e seu amor brigavam de vez em quando.

E quando brigaram leve, houve pesada revolta no mar.

E quando brigaram feio, passou pela cidade o pior furacão de todos os tempos.

E na iminência de terminarem o namoro, as folhas das árvores caíram em massa.

E foi quando terminaram que ele, que ainda amava demais, fez congelar as poças d'água, os encanamentos, as bacias hidrográficas, e os minerais, as plantas, as bestas, e os homens todos.

Não se sabe se isso foi feito proposital ou acidentalmente. E nem se poderá saber mais, porque já não havia testemunha alguma descongelada que pudesse continuar essa histó

domingo, 23 de maio de 2010

Joana

Conta que da família, Joana era a mais bem-sucedida e que era, portanto, a mais invejada. Um mimo de gente, uma jóia rara, de dotes clássicos: tinha beleza, tinha graça, tinha sensibilidade, tocava piano, sabia costurar, cantava bem, atuava, pintava, até mesmo escrevia de vez em quando e dela saíam as poesias mais inteligentes, mas que, por qualquer motivo, não as publicava e somente poucos as liam.
Mas nem só de classicismo vivia a jovem. Era também um estandarte da mulher moderna: articulada, bem-sucedida, estudiosa, trabalhadora e namoradeira – sempre de um homem só, e, aliás, um deus grego, segundo as vizinhas, e um viadão, segundo os vizinhos.
Causava pontadinhas de inveja nas irmãs, nas primas, nas tias e até nas inamigas. E disso até onde parece ela tinha consciência, embora não ligasse de todo.
Pois então, conta que um dia o olho gordo pegou de vez e ela sofreu um acidente de moto, mas só se feriu o suficiente pra ficar um tempo num hospital. A beleza estava intacta, ufa.
E no hospital, ela recebeu uma cesta de flores, com um cartão modesto, assinado por uma das tias, desejando melhoras.
E ao ver o cartão, antes que lesse, ela sentiu que.
Ela sentiu que.
Sentiu que.
Que.
Porra, ela sentiu que.
O que ela sentiu? Calma, vamos lá: ela tem um acidente, recebe um cartão de uma tia invejosa e quando vê o cartão sente que.
Não dá! Argh, não dá pra dizer o que ela sentiu!
Mas eu sei o que ela sentiu, porra. É algo, aliás, bem lógico de se sentir numa situação dessas. Ela sentiu que.
Não dá. Não sai. E agora?
Não consigo fazer ela sentir. E agora? Ela precisa sentir, meu deus. Ela merece. Ela merece sentir isso de.
E não tem mais ninguém para sentir por ela! É só ela, com tudo o que a caracteriza que pode sentir isso de.
Um sinônimo, é isso, um sinônimo. Posso dizer que ela sentiu que cambeps.
Que czztrais.
Que ascmpin!
Que suc!
Que merda! E agora que não sai? O que ela sente não sai e o que parece sai errado.
Joana sofre um acidente. Joana sofre um acidente e é hospitalizada. Joana é hospitalizada e recebe um cartão. Joana lê o cartão e, finalmente, sente que.
Ela sente que.
Peqpocz é sentido por ela.
Eu lá sou irresponsável de deixar ela viver sem sentir isso que lhe cabe? Criei uma vida, porra, agora sou responsável por ela. É meu dever, e um direito dela, poder sentir tudo o que lhe é de direito, inclusive sentir que.
É isso.
E no hospital, ela recebeu uma cesta de flores, com um cartão modesto, assinado por uma das tias, desejando melhoras.
E ao ver o cartão, antes que lesse, ela sentiu que o coração parara.
Pronto.

sábado, 1 de maio de 2010

Parte 4

Cheguei, filha da puta!
Você achou que nunca mais fosse me ver,
Mas com teu carma, só muita luta
Pra não ficar agora à minha mercê.
Cadê as crianças?
Na casa de um amigo, que o caralho!
Cadê as crianças?
Você esqueceu elas no trabalho?
Quantas mudanças,
Até arranjou emprego,
Agora pega a merda do carro e vai buscar
Antes que eu precise o teu pinto chamuscar
Com meu cigarro, só aí 'cê pede arrego.
Assim que elas chegarem,
Vou fazer umas perguntas,
E se elas não falarem,
Corto a língua sua e dela, as duas juntas.
Falar nisso, velho amor,
Onde está ela?
Sabia que eu viria e já pressentiu a dor?
Ou se ocupa simplesmente de limpar uma panela?
Enquanto isso, me sento, e peço água.
Não me traga quente, nem gelada,
A temperatura certa abranda minha mágoa,
Só traga as crianças, e não me esconda nada.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Rasgos

Quando te vi luziu-me uma centelha.
Perdi o rumo, o chão: perdi a fala.
Fiz-me cortês e, então, p'ra conquistá-la
Rasguei uns versos com tinta vermelha

Mas foi em vão tal poesia torta
Porque não te iludiam os pronomes
Para que me notasses, nossos nomes
Rasguei na casca duma árvore morta

E vendo qu'inda tinha fracassado,
Tentei um método desesperado:
Rasguei a pele em tatuagem rasa!

E ao perceber que não serias minha
Te amei da forma como me convinha:
Rasguei-te o peito e te pus toda em brasa!